segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

Baraldi: o bom senso venceu!

Populismos a parte, reproduzo a matéria veiculada no Diário do Grande ABC e parabenizo a administração de São Bernardo do Campo, que lutou pela vitória do bom senso no caso da Represa Baraldi/Estrada do Montanhão. Critico os erros, e reconheço os acertos. É assim que devemos caminhar.

A Reabertura da estrada representa a reabertura de um caminho, que mesmo com algumas variantes, já tem mais de cem anos. Representa o fim da possibilidade de isolar 220 famílias sambernardenses.

E que Santo André se atenha aos seus problemas antes de meter o bedelho nas coisas de São Bernardo do Campo.

Moradores festejam a reabertura da estrada

domingo, 25 de dezembro de 2011 7:49

Famílias do Baraldi têm caminho livre

Fábio Munhoz
Do Diário do Grande ABC



A passagem que liga as 220 famílias do bairro Baraldi até o Parque Selecta, em São Bernardo, foi reaberta na manhã de ontem. O prefeito Luiz Marinho (PT) participou da liberação da Estrada do Montanhão, localizada na divisa com Santo André e fechada desde o dia 15. A desobstrução da via foi iniciada na sexta-feira, mas não foi concluída no mesmo dia por conta dos grandes obstáculos colocados pelo Semasa, de Santo André.
A liberação da via foi festejada pelos moradores que, acompanhados do prefeito, percorreram a pé os 1.800 metros que estavam fechados. "Foi uma grande vitória. Com certeza as nossas organização e luta motivaram a reabertura", comemora a dona de casa Soraia Roseli Tolotte, 33 anos.
A rápida desobstrução surpreendeu quem vive no bairro. "Eu esperava que a gente fosse ficar isolado por uns dois meses, no mínimo. Que bom que agora vamos poder receber familiares para o Natal", desabafa a dona de casa Maria Lúcia de Souza Silva, 49.

Para o operador de fundição Isaac Mariano, 48, a retirada das barreiras representa alívio, já que sua sobrinha de 9 anos faz tratamento contra tumor no rim, no Hospital das Clínicas, em São Paulo. "Depois que fechou, ficamos desesperados. O tratamento dela teve de ser interrompido."

LIMINAR
Na quinta-feira, liminar emitida pelo Tribunal de Justiça determinou que o Semasa ou a Prefeitura de Santo André executasse a abertura imediata da estrada, o que não aconteceu. Em recesso, o órgão andreense afirmou que não foi notificado oficialmente da decisão.
Para Marinho, o Semasa fugiu para não ter de realizar o serviço. "Soube de gente de lá do Semasa que, quando souberam da decisão, foram embora imediatamente para não serem atormentados." Diante da inércia do município vizinho, São Bernardo buscou na Justiça autorização para executar a liminar.
O prefeito espera que a partir de agora o debate em torno da via seja feito com "racionalidade e bom-senso". "Eu já me ofereci à Prefeitura de Santo André para que a gente assuma a manutenção em toda a estrada, inclusive no trecho que pertence a eles. Infelizmente, não tivemos retorno."
Marinho afirma que não visitou a estrada no dia do fechamento para "não fazer besteira". "A minha vontade era colocar a guarda municipal para enfrentar a Polícia Militar e impedir o bloqueio. A PM teria de me prender. Mas, infelizmente, essa foi uma ordem judicial e eu tive que aceitar com dor no coração."
IMBRÓGLIO
O processo que determina o fechamento da estrada tramita desde 1992 e tem como motivador a questão ambiental. A alegação do Ministério Público é de que o tráfego na via oferece danos ao meio ambiente. A via fica em área de manancial.

quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

Estamos no Facebook!

Sinal dos tempos, meus amigos!
Agora o Memórias de São Bernardo tem uma página no Facebook! Pra ficar sabendo das novas postagens do blog, e sobre outras coisas de nossa história, basta acessar: http://www.facebook.com/pages/Mem%C3%B3rias-de-S%C3%A3o-Bernardo/263780090347775 e clicar em "curtir".

Você também pode fazer isso usando o aplicativo do Facebook instalado no lado direito da página.

A Memória de São Bernardo do Campo agradece! (e o autor também!)

quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

Represa Baraldi, um risco para a natureza?

Pra começar o texto, como sempre dedicado aos que gostam de ler detalhes e pormenores, e não aos que apenas gostam das "pílulas" de informação, deixo o que Ademir Médici escreveu em 1981, na bela obra "São Bernardo: seus bairros, sua gente", da série Cadernos Históricos, que durante a administração Tito Costa publicou as maiores obras já escritas sobre os antecedentes de nossa cidade. Médici fala sobre a "Represa dos Baraldi", ou Represa Baraldi, ou, como a imprensa anda dizendo, "Bairro Baraldi" - No texto de Ademir Médici, faço alguns grifos, que comentarei posteriormente:

"Nas suas colônias perdidas da freguesia de São Bernardo, os Baraldi procuravam cascas de passariúvas, uma matéria-prima excelente para curtir couro. Num carrinho de mão, puxado por homens e animais, as cascas obtidas eram transportadas até o centro de Vila de São Bernardo, de onde, em carroças, eram conduzidas a São Paulo. Nesta época - crepúsculo do século passado - havia muito palmito nas matas do Montanhão. E muita madeira excelente para a construção de móveis, além das passariúvas, naturalmente.


Os Baraldi, descendentes dos primitivos imigrantes italianos que se estabeleceram no Montanhão no século XIX, estão espalhados pelo Grande ABC.


O Montanhão, ao tempo da chegada dos Baraldi, era uma selva cerrada, de acesso difícil e fauna das mais diversificadas.


Os Baraldi, no Montanhão, receberam quatro colônias de seis alqueires cada uma. Uma colônia para cada um dos filhos de Luiz e Catarina Baraldi, todos crianças na época. Ângelo, por exemplo, o pai dos três carvoeiros de Santo André que estão contando todas essas passagens, tinha nove anos quando chegou ao Brasil.


Nas terras recebidas, os Baraldi, além de procurarem cascas de passariúvas, plantavam e criavam animais para o sustento próprio. Tinham como vizinhos outras famílias de imigrantes italianos. Os Pessoni eram os vizinhos mais próximos. Tinha também a família de Jacob Savordelli e a família de Atílio Lui (que mantinha em sua colônia um moinho de fubá). Do lado oposto, onde hoje é o Parque do Pedroso, em Santo André, a família vizinha mais próxima dos Baraldi era a dos Pedroso, família de brasileiros que há muito tinha terras no local.


Sobre os Pedroso, um episódio que Luiz Baraldi escutou de seus pais. Os Pedroso eram donos de aproximadamente 100 alqueires de terras na região e queriam vender suas propriedades. Ofereceram suas terras aos Baraldi pelo preço de um conto de réis. Os quatro irmãos Baraldi (Guilherme, Ângelo, Antonio e José) recusaram a oferta. Principal argumento:


“- Na terra de você tem pouca passariúva”.


Sim, nas terras do Pedroso existiam poucas passariúvas. E a ótima e abundante madeira existente nas terras do Pedroso, excelente para a fabricação de móveis não chamava a atenção dos Baraldi na oportunidade. As fábricas de móveis de São Bernardo ainda não haviam sido fundadas. E quem iria se interessar por aquelas madeiras?


São memórias, recordações de netos e filhos dos Baraldi que, junto com outras famílias, desbravaram o Montanhão. Causos, como eles diziam, que ouviram de seus tios, de seus pais, de seus avós.


Os irmãos Baraldi falavam que, no início deste século, sua família deixou o Montanhão. Mudou para Ribeirão Pires, onde às margens da atual estrada Velha do Mar, a família montou uma serraria. A serraria funcionava no sítio Baraldi, onde havia também boiadas, plantações, etc. O retorno dos Baraldi ao Montanhão ocorreria em 1927, quando os atuais carvoeiros da rua Natal já eram mocinhos.


No retorno ao Montanhão, a procura de passariúva no mato já era uma atividade de há muito abandonada. Os moradores do Montanhão realizavam outras tarefas, como extrair carvão, retirar lenha e derrubar toras, toras nesta época utilizadas na fabricação de móveis.


O retorno dos Baraldi ao Montanhão coincidiu com o início das obras de abertura da represa Billings. Em 1934 as águas da represa já haviam subido bastante. E junto às colônias dos Baraldi os rios naturais já haviam sido inundados. Esta parte da Billings passou a ser chamada de represa dos Baraldi, denominação que persiste até hoje.


Francisco Baraldi diz que a estrada primitiva que ligava o Montanhão ao centro de São Bernardo ia dar na avenida Tiradentes (região da Vila Santa Terezinha), depois de passar pela pedreira que é hoje da Prefeitura e depois de passar por um tanque que era do Italo Cerchiari (atual Vila do Tanque).


Era por esta estrada que nossos antepassados conduziam os carrinhos de mão puxados por burros e transportando passariúvas. Hoje, esta estrada está desativada na sua parte mais afastada, coberta pela vegetação.


Luiz, irmão de Francisco, fala de outra estrada, aberta pela Light quando da construção da represa:


“- É a estrada do Botujuru que vai beirando a represa e que termina embaixo da ponte da Via Anchieta que liga Riacho Grande ao resto da cidade, sobre a Billings”.


Anos depois os Baraldi deixaram o Montanhão. ou pelo menos grande parte da família deixaria o Montanhão. Em 1942, a II Guerra no auge, Francisco Baraldi muda-se para Santo André, para trabalhar em sua carvoaria montada na rua Natal. Luiz, seu irmão, deixa o Montanhão quatro anos depois, para trabalhar com Francisco na carvoaria. Estão no ramo até hoje.


Mais de 100 anos depois, o Montanhão é ainda uma região praticamente desabitada, semi-selvagem, rural, quase estranha aos olhos do resto do Grande ABC. Cascas de passariúvas continuavam existindo em profusão no lugar, apesar de não serem mais colhidas para curtir couro. Pescadores percorreram as matas locais, ainda espessas em busca dos melhores pontos da represa Billings. E o Montanhão, em extensão, suplanta os territórios dos maiores bairros da região."

Fica a reflexão. A Origem do desbravamento do local está ligada ao início do Núcleo Colonial de São Bernardo, estabelecido pelo Império em 1877. De lá, os Baraldi e seus respectivos vizinhos, tais como os Pedroso, que já ocupavam a área anteriormente, exploravam lenha, carvão, e madeira para a fabricação de móveis. Em 1927, a Represa Billings inundou os rios e seus traçados naturais, que ocupavam toda a região.

Hoje, o Ministério Público de Santo André, talvez (e lamentávelmente) desligado das origens daquele lugar decide o fechamento da estrada que dá acesso ao bairro, desde São Bernardo, ficando este ligado apenas a Santo André. Esse processo, que corre desde a década de 1990 já priva os moradores de melhorias na estrada, que chegou a ficar totalmente intransitável e impedida em certos momentos.

Alegam que a estrada aberta, a Estrada do Montanhão, representa um "risco para a natureza". Que natureza? O Isolamento da região até hoje, desde os tempos dos Baraldi, permitiu que a região continuasse com extensas matas preservadas. Isso, apesar da devastação promovida pela construção do Rodoanel (não foi um "risco para a natureza" devassar toda a mata que a obra devassou? Nem assorear os mananciais que ela assoreou?). Tratam a Represa Baraldi como se fosse uma invasão, algo irreal, sendo que é basicamente um bairro de sítios muito bonito por sinal. E a ação do glorioso Ministério Público em torno das imensas invasões que despejam esgotos na represa e que destroem os mananciais? São Bernardo aguarda ansiosamente estas ações! Essas invasões são alvos de grilagem de terras, por parte de pessoas sem escrúpulos que iludem a gente simples da cidade que busca um conforto para si e para seus familiares. Que tal uma ação em torno desses grileiros que empesteiam a cidade com loteamentos clandestinos? Esses loteamentos tem uma consequência nefasta para a cidade, que ao longo dos anos precisa gastar onerosas cifras para regularizar, fazer ligações de água, luz e esgoto e providenciar serviços. Tudo isso sob pesadas multas que partem dos órgãos que deveriam FISCALIZAR, e não PUNIR.

O Baraldi precisa dessa fiscalização! O Risco ali não são os moradores, é a falta de fiscalização que permite o depósito de entulhos nas margens da estrada, e outros VERDADEIROS crimes contra as matas de nossa cidade. Não permitir a ligação de um bairro que começou a se formar nos tempos do Império com o centro da própria cidade, é uma medida que surpreende pela infantilidade, e é um atestado da falta de planejamento que assola todas as esferas da administração pública.

Solução? Simples! Não permitir a expansão do bairro, e FISCALIZAR o depósito de entulhos, a formação de novos núcleos populacionais na região, e outros crimes ambientais. Além disso, dotar a Represa Baraldi de uma pequena estação de tratamento de esgotos, e claro, de serviços básicos.

Com planejamento e fiscalização, a Estrada do Montanhão poderá continuar aberta, como sempre esteve, servindo a população do bairro, como sempre serviu.

*A Imagem é da Estrada do Montanhão. Do Diário do Grande ABC.

quarta-feira, 30 de novembro de 2011

Sem Juízo (III)

Matéria da TV ABCD. Parece que a prefeitura acordou, mas acordou tarde!

TVABCD apurou que a obra é ILEGAL e a Prefeitura de SBC embargou a obra por tempo indeterminado

Conforme matéria da TVABCD publicada na semana passada, referente a obra da Câmara Muncipal de São Bernardo, o vereador e presidente Hirouyki Minami (PSDB) respondeu a nossa reportagem na última quarta-feira (16), em alguns trechos que o problema está sendo resolvido pelo diretor geral da casa, Ricardo Pereira “Acredito que ele (diretor) segue todas as preocupações necessárias”, afirmou.

Minami destacou na mesma reportagem que haveria demolições internas, como forro, teto, e algumas paredes, mas o restante permaneceria “A estrutura é a mesma e não vai ser demolida”, disse.

Em resposta, o presidente da Câmara de São Bernardo Minami afirmou ainda que não havia analisado a questão, “Não tive tempo ainda para conversar com ele (diretor) e trocar essa idéia. Ele é o diretor-geral e está acompanhando todo o processo”, completou.

Depois de uma série de reportagens a TVABCD apurou que a obra é ilegal e em reportagem exclusiva com o Secretário de Obras da Prefeitura de SBC, José Cloves da Silva, informou que os termos 'embargado' e 'parado' são a mesma coisa.

Nesta quarta – feira (30) oficialmente a Prefeitura de São Bernardo informou que embargou a obra da reforma da Câmara por tempo indeterminado e solicitou também a apresentação de novos documentos referentes ao caso.

A TVABCD continua de olho e não vai parar de acompanhar o caso. Nesta quarta-feira (30) entrará com uma ação, requerendo a Instauração de Procedimento para Apuração de Irregularidades da reforma Câmara perante o Ministério Público da cidade para que esse caso, não caia no esquecimento e não passe desapercebido perante as autoridade e a sociedade.

Comentário: E agora? Como ficará a porção demolida do plenário? Será que vai ser restaurada de acordo com o projeto original? Eu sinceramente duvido! E o dinheiro gasto? Vai sair do bolso dos srs. vereadores de S.Bernardo do Campo que nada fizeram contra esse absurdo?

Sem Juízo (II)

Ainda sobre o mesmo tema, publico o texto que recebi do meu amigo Leandro Giudici através de seu blog, o Bernôtícias (http://bernoticias.blogspot.com) tratando da infeliz demolição do Plenário Tereza Delta. A Foto (acima) que acompanha é da construção do Paço Municipal, nos anos 60.

Duro golpe na alma Sambernardense
Leandro Giudici

São Bernardo do Campo tem assistido perplexa e pacientemente um dos maiores atentados a alma de sua cidade. A demolição do plenário da Câmara Municipal para uma desconhecida e muito mal explicada 'reforma', que visa modernizar suas instalações é entristecedora.

Se o brasileiro por sua cultura (ou falta dela) valoriza tão pouco o seu passado, o sambernardense viu ao longo das seis últimas décadas a memória do seu povo ser enterrada, varrida e moída em escombros, como agora. Um misto de desrespeito e desleixo com o povo e o coração do município que a maioria dos responsáveis por tal descalabro desconhece, por desapego ou por dar ombros as pessoas e os tesouros dessa terra.

A cidade pujante, das indústrias, dos automóveis, motriz do desenvolvimento que tanto contribui para os altos números da saúde financeira do país cresceu sem olhar para trás. Na Rua Marechal Deodoro, onde tudo começou e tudo aconteceu, poucas construções nos remetem a sua importância. Sobrou a Câmara de Cultura, a Esportes Cassettari, a velha igrejinha de Nossa Sra. da Boa Viagem e a Praça Santa Filomena, tão mal cuidada. Casarões e prédios antigos foram desaparecendo da paisagem sem explicações.

Da mesma maneira vem sendo agora, a cúpula da Câmara que compõe a bela arquitetura do Paço Municipal, que por muitas vezes ilustrou postais está virando pó, estão cuspindo e pisando em nossa bandeira.

Justificam a 'demolição' da obra - revestida por granito italiano - para realizar uma suposta 'reforma', que apenas as eleições que se avizinham podem justificar. Algo para inglês ver, sem importância alguma e que abrirá uma grande ferida na alma do seu povo. Além é claro do seu valor, que torna-se indiferente se comparado ao tamanha afronta, R$ 28 milhões.

Se algo pode ser pior, indigna a complascência das autoridades, a começar pelo prefeito Luiz Marinho (PT), seus Secretários e os 21 vereadores que assistem de maneira omissa, irresponsável e covarde o teto desabar sobre suas cabeças.

Não somente eles, imprensa, OAB (Ordem dos Advogados do Brasil), grupos pró-cidade e os mais influentes também se calam. Um silêncio ensurdecedor.

segunda-feira, 28 de novembro de 2011

Sem Juízo

< A Imagem que inicia esse texto, depois de muito tempo sem novidades por aqui, foi recebida pelo Facebook, via Paulo Dias.

Estamos beirando a chegada de um novo ano: 2012. Para São Bernardo do Campo, 2012 é um ano histórico, pois completaremos 200 anos da elevação de São Bernardo a Freguesia, providência do Marquês de Alegrete, que deu um "upgrade" no status quo daquele longínquo e esquecido subúrbio rural de São Paulo. Na época, éramos um "ajuntamento" perdido no Caminho do Mar, um lugarejo que ainda pertencia à Capital, e assim permaneceu até 1890. No entanto, resumir 2012 a uma "canetada" do Marquês de Alegrete não reflete o real significado do que o ano de 1812 significou. Como alguns sabem, São Bernardo nasceu como uma fazenda do Mosteiro de São Bento, em outro local, longe do que atualmente chamamos de "Centro", ás margens do Ribeirão dos Meninos (que era Ribeirão dos Couros, e o nome foi trocado devido a uma confusão nunca desfeita) nas proximidades (acredita-se) do atual Carrefour Vergueiro. Foi em 1812 que São Bernardo começou a ter os traços mais marcantes de sua caracterização, da transmutação do espaço rural em um núcleo urbano. Foi nesse ano que se delineou o que são hoje as nossas ruas centrais, todas elas partindo da Estrada de Santos (Rua Marechal Deodoro), formando quarteirões, formando a Praça da Matriz, e com esse tímido planejamento, desenhando a identidade do atual Centro.

Em 1812, a Matriz (a antiga) estava em construção, a "capelinha", ás margens da atual Rua Marechal Deodoro fazia ás vezes de igreja provisória, e dava a proteção necessária ao viajante que, por obrigação profissional, se arriscava a viajar de S.Paulo até Santos.

O Paralelo entre essa pequena resenha e a foto do cabeçalho é simples! Desde 1812, quando começamos a traçar a nossa atual "identidade uirbanística", com ruas, edifícios e outros empreendimentos indispensáveis a "vida na cidade", assistimos, incólumes, ao progresso, e também, depois do "apogeu" do desenvolvimento dessa cidade pequena, quando iniciamos a conversão para o rótulo de "cidade grande e industrializada", a queda e a descaracterização de tudo o que marcou a identidade de nossos pais, avós, bisavós e cia. ltda.

Quando entramos na década de 1950, as transformações na vida de nossa cidade geravam certa euforia: indústria, Via Anchieta, processo de emancipação concluído, muitas perspectivas... Tudo isso fez São Bernardo iniciar um processo semelhante ao vivido pela Capital entre 1900 e 1920: a substituição dos edifícios e marcos que retratavam uma cidade pequena e pacata por marcos mais pomposos, que pudessem dar aos habitantes novos orgulhos, novas imagens para apresentar, e a cara do "progresso" que a cidade vinha atingindo.

De 1950 pra cá perdemos a velha matriz, perdemos a velha Praça da Matriz, que passou por um sem número de reformas discutíveis, perdemos o Grupo Escolar, o Campo do Palestra, o Estádio Ítalo Setti, os cinemas da Marechal Deodoro, a velha magnólia, vimos os nossos rios serem sepultados debaixo de novas ruas e avenidas... A Cidade ganhou um novo aspecto, que seria a identidade de São Bernardo do Campo diante de suas novas gerações. Dentro desse contexto, estava inserida a construção do novo Paço Municipal, do lado da antiga casa de Tereza Delta, que depois viria a ser o Grupo Escolar João Ramalho, e posteriormente, a sede da Guarda Civíl Municipal. Erguido no encontro de dois rios, era um marco imponente do papel que São Bernardo almejava: metrópole industrial pujante. Um edifício de 20 andares, em estilo moderno, conjugado ás dependências do legislativo e a uma espécie de Centro Cultural, que jamais chegou a ser erguida, e que ficaria onde hoje está o terminal de ônibus/tróleibus.

O Edifício, rapidamente se encarregou de "alargar" as fronteiras do Centro da cidade, criando o "Centro Velho" (nunca conhecido por este nome, usado apenas para traçar um paralelo com o que ocorreu na Capital) composto pela Matriz e adjacências, o real Centro da cidade, e agora, pelo "Centro Novo", os arredores do Paço Municipal, símbolo da nova cidade.

Não demorou muito para que ele se tornasse o cartão postal da cidade, jogando todo o resto pra escanteio. Além disso, sua conformação viária e urbana fez com que todas as vias centrais convergissem de e para ele. Para complementar, quem vinha de Sto.André para São Bernardo, desembocava diretamente nele, quem vinha de S.Paulo também. Dessa maneira, o centro das decisões de S.Bernardo tornou-se também um marco visual para a nossa população, que acostumou-se ao longo dos anos a contornar a Praça Samuel Sabatini olhando para a enorme praça, para os lagos, para os chafarizes e para o imponente edifício.

O Problema é, para uma cidade que foi descartando os seus símbolos no decorrer dos anos, sempre apegada a "estética do progresso", os símbolos são passageiros, cumprem seu papel, e desaparecem. Tudo isso com o pretexto inconsciente de que, em uma cidade suburbana, nada é "de primeira". Não estamos no topo da hierarquia urbanística, somos secundários, a memória aqui é rotativa, e por isso não nos apegamos a essas coisas. Não olhamos um prédio de S.Bernardo como sendo um exemplar primoroso da arquitetura, sabemos que não são, um dia cairão para dar passagem a uma nova tentativa de impôr um novo símbolo, que nos coloque ao lado das "cidades avançadas". Tendo esse processo como tônica, o próprio prédio da prefeitura foi sendo largado, abandonado, mesmo com a administração e todos os seus tentáculos ainda funcionando naquele recinto. Chegaram até mesmo a propor a transferência da administração para a Avenida Kennedy, um "novo centro", simbolizaria melhor a S.Bernardo de hoje. O Prédio atual? Poderia ser demolido! Ali construiriam um piscinão para conter as enchentes do Centro. Não foi adiante, felizmente.

Pouco tempo atrás, o legislativo ergueu um anexo ao lado das dependências da câmara, destruindo a harmonia arquitetônica do conjunto do Paço Municipal em nome do "exíguo espaço a disposição do legislativo". Agora, derrubaram o plenário Tereza Delta. Não nos comunicaram, não nos deram satisfações, apenas colocaram uma escavadeira que começou a derrubar mais uma vez um pedaço da cidade, de nossa memória, destruindo assim mais um símbolo de S.Bernardo, mesmo que seja um dos que foram construídos em nome de outras derrubadas, mas que caracterizou a memória de pelo menos duas gerações.

Alguém poderá se manifestar defendendo o argumento citado acima, ironicamente, o da "arquitetura de segunda". Rebato dizendo que, um patrimônio não é composto apenas por arquitetura, e sim por memória afetiva, visual, simbólica.

Derrubam o plenário, gastam dinheiro (uma boa soma, para uma obra desnecessária) não dão satisfação, e mais uma vez seguem colocando a memória de nossa cidade no chão, varrendo nossos ícones para debaixo do tapete.

Em que os futuros sambernardenses se apegarão? Provavelmente a idéia de sair de S.Bernardo.

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

Ítalo Setti

Entre muitos cidadãos de São Bernardo que merecem destaque, sejam naturais ou adotivos, dificilmente um nome fica acima do de Ítalo Setti. Mas afinal quem foi Ítalo Setti? Era mais um dos vários e vários imigrantes italianos que chegaram ao Núcleo Colonial de São Bernardo (estabelecido pelo Império em 1877), buscando melhores condições de vida, e muitas vezes acreditando em promessas nada verdadeiras dos agentes de imigração que trabalhavam na Itália e em outros países que enviaram seus cidadãos à América.

Ítalo chegou a São Bernardo aos 12 anos de idade, mais precisamente em 1879, dois anos depois do início da formação do núcleo. Como muitos jovens de sua época, particularmente imigrantes de diversas origens, ajudou na derrubada da mata nas terras em que sua família recebeu. As árvores derrubadas se transformavam em carvão, que era transportado por carroceiros até a Estação de São Bernardo (Santo André) ou até São Paulo pelo velho Caminho do Mar, mal conservado e precário, o que transformava uma viagem hoje realizada em minutos em uma jornada que costumava durar o dia todo. Ítalo foi carroceiro, transportando o produto citado até a Capital, onde era vendido. A Produção de carvão ocupou posição de destaque por muitos anos na incipiente economia que a “Villa” possuía na época. Em 1889, Ítalo jura a bandeira depois de ter requerido o título de cidadão Brasileiro naturalizado. Em 1920, torna-se vereador junto à Câmara Municipal de São Bernardo, sediada na própria Vila de São Bernardo (São Bernardo Sede) onde hoje se encontra a “Câmara de Cultura”, na Rua Marechal Deodoro entre as ruas Padre Lustoza e Doutor Fláquer. Também ocupou os cargos de procurador da prefeitura e de juiz de paz.

Em 1904, Ítalo Setti inicia as suas atividades como industrial, lançando no pacato vilarejo a idéia da industrialização, fortemente associada a idéia de progresso, fundando a fábrica de charutos “A Delícia”, que encerrou as atividades em 1912 para que o mesmo Ítalo Setti pudesse fundar a Companhia Tecelagem São Bernardo, o maior estabelecimento industrial do lugar, que já detinha a tradição na fabricação de móveis, e que agora tinha a indústria que melhor representava o ideal progressista do Brasil de então: A Indústria têxtil. Ali, Ítalo iniciou a sua obra em prol do lugar em que vivia: Foi o primeiro empresário a distribuir cestas de natal, que começaram com a distribuição de uma simples garrafa de vinho para as suas funcionárias, estudioso, era um especialista na interpretação das leis e na constituição brasileira, dando atendimento constante a população que o procurava buscando sanar dúvidas com relação a este tema. Defendia os interesses de São Bernardo mesmo estando distante da política, pois na época, apesar de a câmara estar na “Villa”, a prefeitura já estava instalada na atual Santo André (embora tudo ainda fosse um único município, o Município de São Bernardo) o que provocava demoras e falhas no atendimento aos cidadãos de São Bernardo.

Nos anos 30, seu filho Armando Setti chega ao cargo de prefeito municipal. Eram tempos difíceis, o Brasil vivia crises internas e vivia também a crise ocasionada pela quebra da bolsa de Nova Iorque. Com os conselhos do pai, Armando emprega uma gestão exemplar em São Bernardo, e diante da crise, a sua primeira medida foi baixar uma portaria reduzindo os seus próprios vencimentos. Ainda em sua administração, o trecho central da Rua Marechal Deodoro foi calçado com paralelepípedos, e esta foi a primeira rua calçada de toda a região, tendo São Bernardo recebido a melhoria antes mesmo da Rua Cel.Oliveira Lima em Santo André, que era a rua mais importante do ABC na época. O Calçamento, dizem foi conseguido por intermédio do próprio Ítalo Setti, de uma pedreira de Rio Grande da Serra que tinha dívidas com a prefeitura. O Calçamento foi uma verdadeira revolução para São Bernardo, pois o centro do lugarejo sofria com a poeira e com o trânsito de veículos que corria toda a Marechal Deodoro, único acesso da Capital para Santos até 1947.

Além desta melhoria, também fez com que São Bernardo fosse o primeiro lugar do ABC dotado de energia elétrica, benefício que conseguiu por méritos próprios junto à The São Paulo Tramway, Light and Power Co. que controlava o fornecimento de luz e o serviço de bondes na capital e em seus arredores.

Em 1896, fundou junto com compatriotas a Societá Mutuo Socorso Italiani Uniti, em 1941, doou um magnífico terreno ao Esporte Clube São Bernardo, que tinha a simpatia de Ítalo Setti por representar o nome de nossa cidade. Doou também uma área de 1300 m2 na Rua Doutor Fláquer, onde financiou e construiu o primeiro pavilhão da Escola Ítalo Setti, sob a condição de que pelo menos 15 crianças pobres recebessem instrução gratuita. Essa escola, depois de ampliada tornou-se o Colégio São José, das freiras palotinas.

Em 1942, doou o avião “João Ramalho” à Companhia Nacional de Aviação, na presença de altas autoridades, inclusive o Ministro da Aeronáutica, Salgado Filho, e o jornalista Assis Chateaubriand, lembrando que a aeronave doada tinha o nome do fundador de São Bernardo.

A Antiga Igreja Matriz também recebeu muitas benfeitorias por parte de Ítalo Setti: Entre elas, peças de iluminação, adornos, e toda a pintura do altar mor e da nave central. Foi o grande precursor da autonomia político-administrativa de São Bernardo, perdida em 1938, mas recuperada em 1944.

E depois de tantos feitos, apenas uma pequena rua recebe o seu nome, enquanto três das mais importantes avenidas da cidade homenageiam: 1 - o golpe militar de 1964 (Avenida 31 de Março) 2 – Um Americano que jamais pisou em São Bernardo – Avenida Robert Kennedy e 3 – Outro cidadão norte-americano que também nunca pisou na cidade, o Presidente Kennedy, homenageado na Avenida Kennedy.

Dá pra entender?

Bibliografia consultada: PESSOTTI, Attílio – Villa de São Bernardo, Cadernos Históricos, 1977.

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

Os muitos campos de outrora

Quem hoje passa pelo Centro de São Bernardo, não consegue imaginar que ali, em plena Rua Marechal Deodoro e em suas adjacências, existiam vários campos de futebol até os anos 60. Por este motivo, resolvi escrever um texto falando sobre estes campos, encravados em pleno centro da cidade, quando o futebol São-Bernardense (ou sambernardense) gozava de mais prestígio e de mais atenção por parte de seus moradores.

O Primeiro campo, ou melhor, o mais antigo que conhecemos, era utilizado pela antiga Associação Athlética São Bernardo, e ficava em um terreno de propriedade do Sr.Ítalo Setti, um dos mais ilustres cidadãos que São Bernardo do Campo já possuiu. (a vida dele é tema de outro texto). Este campo, ficava no quarteirão delimitado pela Rua Marechal Deodoro e pelas Avenidas Francisco Prestes Maia e Brigadeiro Faria Lima. O Campo foi instalado ali na época da primeira “febre” futebolística de São Bernardo, e a intenção da Associação Athlética, era comprar o terreno do proprietário, que para isso facilitou o preço em parcelas “bem camaradas”. No entanto, em 1922, a AASB faliu junto com o seu maior rival, o Internacional FC. O Campo continuou sendo utilizado de maneira informal, pelo futebol de várzea da cidade, até que em 1928, o recém-fundado Esporte Clube São Bernardo passa a utilizar a área em benefício próprio.

Em 1941, o clube resolve procurar o Sr.Ítalo Setti, visando a aquisição do terreno para a constituição de sua sede própria, instalada até então na Rua Marechal Deodoro, primeiramente na sobreloja do Bar Expresso, tradicional reduto de admiradores do clube, e depois em uma velha sala de cinema desativada. Simpático à idéia do clube, o Sr.Ítalo Setti doa o terreno à agremiação impondo algumas condições: O Estádio deveria chamar-se Ítalo Setti, e caso o clube se dissolvesse, o terreno voltaria para as mãos da família. Desta forma, o “Esporte” (nome carinhosamente dado ao São Bernardo) constrói ali toda a estrutura de um clube social: Estádio com arquibancadas, iluminação noturna (o S.Paulo FC veio inaugurar em partida amistosa contra o ECSB), quadras de basquete, vôlei, futsal, vestiários e demais itens. O Estádio Ítalo Setti, o mais moderno do ABC durou até os anos 60, quando a Avenida Brigadeiro Faria Lima foi construída e rasgou todo o campo, reduzindo a propriedade do clube, que sem local para jogar acabou se desligando do futebol, voltando somente no início dos anos 80. Em 1968, o clube inaugura no terreno o primeiro ginásio de São Bernardo do Campo, além de piscinas, sauna e estruturas modernas que permitiram que o Esporte se tornasse o maior clube da cidade na época. O Ginásio também beneficiou muito o basquete do clube, que sempre colecionou títulos e revelou “cracaços”.

O Terreno pertence ao clube até hoje.

O Outro campo que merece destaque, é o velho campo do Palestra. Até 1952, existia na atual Praça Lauro Gomes, um velho casarão, construído em taipa no Século XVIII, e que pertencia ao Alferes Bonilha, antigo habitante do lugar. Este casarão, de fachada simples e sóbria, teve papel fundamental para a cidade, pois sediou o núcleo colonial de São Bernardo á partir de 1877, além de ter funcionado como cadeia, grupo escolar, posto dos correios, delegacia de polícia, entre outros usos. Atrás dele, mais ou menos onde hoje está a Escola Estadual Iracema Munhoz, existia o Pasto da Prefeitura, que também servia de ponto de retorno para o bondinho que ligava S.Bernardo à Santo André. Após a fundação do Palestra de São Bernardo, em 1 de Setembro de 1935, os responsáveis pela agremiação alviverde procuraram em Santo André o prefeito Saladino Cardoso Franco, que cedeu a área aos Palestristas, que ali construíram dois campos com uma pequena arquibancada. Era a casa do Palestra, envolta por uma pequena cerca pintada de verde e branco, e que tinha o velho casarão com suas janelas da parte traseira voltadas para o acanhado estádio, construído com muito esforço pelos seus simpatizantes.

O Campo foi desmontado juntamente com o velho casarão. Ali nasceu a segunda praça da cidade, e a atual EE Iracema Munhoz, ambos inaugurados pelo Prefeito Lauro Gomes no IV Centenário de São Bernardo, em 1953. Com o casarão, uma grande e importante parte da memória de São Bernardo ficou esquecida, foi sepultada naquele entulho de quase dois séculos, tudo dizimado em nome do “progresso” que chegava à outrora pequena e tranqüila cidade. Sinais de novos tempos, de indústrias e da nova Via Anchieta que rasgava o território do município.

O Palestra, graças a uma atitude cordial de seu rival, mandou seus jogos no Estádio Ítalo Setti até conseguir construir um novo campo, em um terreno cedido pela prefeitura na então “Vila” Ferrazópolis, um deserto urbano que na época nem tinha o “status” de bairro, pois estava vinculado ao centro da cidade.

Lauro Gomes, com essa atitude, se tornou “persona-non-grata” entre os Palestristas, que já tinham Tereza Delta, a grande rival de Lauro Gomes como madrinha do time e do clube.

O Último campo, estava no quarteirão delimitado pelas ruas Frei Gaspar, Alferes Bonilha e pela Avenida Brigadeiro Faria Lima. Era o campo do Brasil, uma das maiores equipes de várzea de São Bernardo, destino certo de muitos jogadores que se “aposentavam” pelo Palestra e pelo Esporte. Ali, apenas um campo, sem arquibancadas era o que bastava para a realização das partidas, sempre muito disputadas, pois o cenário varzeano de São Bernardo do Campo sempre foi da melor qualidade. O Campo, foi cortado pela Avenida Brigadeiro Faria Lima, mas já tinha sido abandonado pouco antes. Em seu lugar está a Praça Brasil, homenagem ao clube que construiu ali um pedaço da história de nosso rico e esquecido futebol.

Sem campos, o futebol da cidade foi acabando, até a inauguração do estádio Humberto de Alencar Castelo Branco, o popular Baetão, pelo prefeito Geraldo Faria Rodrigues, no início dos anos 70. O Baetão, estádio esquisito e acanhado, apoiado de um lado em um grande barranco, com as suas arquibancadas em declive, e do outro com uns míseros quatro ou cinco degraus, enchia e vibrava com as partidas do Aliança Clube de Rudge Ramos, um aventureiro do futebol profissional, que em fins dos anos 70 era a mais poderosa equipe amadora do Estado de São Paulo, campeã invicta do “Desafio ao Galo”, tradicional torneio varzeano, vencedora do “Super Galo”, que reunia todas as equipes campeãs do torneio, e que depois resolveu se profissionalizar, sendo vice-campeã da segunda divisão do Campeonato Paulista em duas oportunidades. Depois, foi absorvida pelo Esporte Clube São Bernardo, que continuou repetindo os feitos da equipe azul.

Ainda nos anos 70, foi inaugurado o Estádio Costa e Silva, mais moderno e amplo, antiga aspiração dos esportistas da cidade. O Terreno pertencia a Tecelagem Elni, uma das mais modernas do Brasil, que estava instalada onde hoje está o Poupatempo. No Estádio, o Palestra enfrentou nada mais nada menos do que o Santos de Pelé, na única apresentação oficial que a equipe fez em S.Bernardo do Campo, antigo e tradicional ponto de concentração do time santista. No entanto, o estádio ficou famoso por sediar as reuniões de metalúrgicos durante as grandes greves do ABC, em fins dos anos 70 e no início dos anos 80. Na década de 80, o estádio foi ampliado, e teve o seu nome alterado para “Estádio Primeiro de Maio” em homenagem aos eventos grevistas. O Estádio permanece inacabado e sem iluminação artificial até os dias de hoje.

E em uma cidade que já teve tantos campos de futebol, hoje temos apenas dois estádios incompletos e acanhados, que não combinam com a grandeza de São Bernardo do Campo, e tampouco com a bela história do futebol de nossa cidade.

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

Turistas em São Bernardo?


* Imagem: Vila Balneária, anos 50 - Acervo Fábio S.Gomes

Há alguns anos, algumas notícias que chegam até os meus olhos noticiam “fabulosos investimentos” no “turismo de São Bernardo do Campo”. O Papo começou a ficar mais “forte” na última administração, e continua nesta, inclusive com uma secretaria dedicada ao tema (não exclusivamente, mas ostenta também o turismo como “bandeira”).

Lembremos: No Início do Século XX, São Bernardo era uma famosa estação de veraneio para famílias de Santos, que aqui possuíam inúmeras chácaras e propriedades. Eles vinham para escapar do rigoroso verão do Litoral, quente ao extremo, e encontravam em São Bernardo um clima mais ameno, com noites bem agradáveis e ás vezes até frias. Desta forma, Santistas tiveram muita influência no crescimento de São Bernardo, fundando bairros, iniciando loteamentos, constituindo diversos empreendimentos. Apenas como exemplo, o atual Bairro Anchieta (o Parque Anchieta, pequena parte do bairro, mais precisamente) foi originalmente um haras (Haras Anhanguera) de propriedade de um Santista, que acabou por iniciar o loteamento do Parque Anchieta. As Árvores que enfeitam o belo bairro, são as que enfeitavam o haras, plantadas pela própria esposa do dono.

Nos anos 40, massifica-se a tradição de vir de São Paulo até as “Colônias” (Bairros Demarchi, Battistini e parte do Bairro dos Casa) para comer frango com polenta. Mas Frango com polenta? Como assim? A Iguaria era quase que um “arroz com feijão” dos Italianos da cidade, que não entendiam como alguém poderia fazer tanto esforço para sair da Capital e ir até aquele “fim de mundo” para saborear uma comida tão simples! Ainda mais a Cidade de São Paulo tendo tantos Italianos quanto São Bernardo! (em proporção)

A Verdade é que alguns enxergaram neste costume uma forma de abrir um novo negócio, e assim as famílias Demarchi, Capassi, Morassi, e outras, acabaram por abrir restaurantes, e passaram a oferecer o vinho que fabricavam, a polenta que faziam com o milho que plantavam, colhiam e moíam ali mesmo, e o frango da galinha que o próprio cliente escolhia no galinheiro. Passava-se o dia todo nas “Colônias”. Hoje a polenta é frita, o vinho é feito com uvas do sul (quando não vem inteiramente processado do Rio Grande do Sul) e o frango deve vir de Santa Catarina. No entanto, o ramo cresceu e São Bernardo abriga o maior restaurante do Brasil, quase sempre lotado e muito famoso. E quem diria: Famoso pelo frango com polenta!

Ainda nos anos 40, e principalmente nos anos 50 e 60, são os pescadores que invadem a Represa Billings. Sábado, á partir das cinco da manhã, já era possível ver gente com linha de pesca e com os caniços de taquara se dirigindo ao “Rio Grande” (Riacho Grande) para procurar um bom lugar e poder passar o dia ali, pescando. Os ônibus que partiam da Capital, principalmente do Sacomã e do Parque Dom Pedro II vinham lotados pra cidade nas primeiras horas do dia. Na hora do almoço, almoçava-se ali mesmo na “Vila Rio Grande”, ou comia-se algo trazido de casa. Os mais “caseiros”, voltavam cedo e almoçavam em casa. Assim, desenvolveu-se todo um comércio voltado a estes pescadores que “invadiam” a cidade aos finais de semana. No Início da Estrada do Rio Acima (Hoje, Rua Rio Acima em seu trecho inicial) as casas de pesca e caça, e na orla da represa, os restaurantes, que também eram ambientes românticos freqüentados por casais do ABC e Capital, que vinham aqui para dançar, ou jantar ás margens do espelho d´agua, principalmente a noite, á luz de velas, nas cantinas que existem (um pouco decadentes) até hoje.

Ah, e iam além, pois já nos anos 60, multiplicavam-se os motéis na Vila Balneária.

Nos anos 70, foi a vez da “farofada” no Parque Estoril, tão menosprezada pela população da cidade que via o operariado das fábricas andando de pedalinho na represa e fazendo grandes piqueniques, principalmente aos domingos, com suas famílias. As Mesmas famílias de operários, ou pessoas de origem mais humilde, freqüentavam também a “prainha” do Riacho Grande nos dias de calor, pois não tinham condições de encarar uma viagem até a Baixada Santista, coisa que é comum até os dias de hoje, mesmo com a represa em condições nada adequadas de saneamento.

Nos Anos 20, com a reconstrução e reforma do Caminho do Mar, e com a pavimentação do trecho de serra, executados na gestão do Presidente do Estado (Governador) Washington Luiz, cria-se em São Bernardo uma estrutura para um “turismo de passagem”, com os restaurantes, bares e pensões ao longo da Rua Marechal Deodoro (que era o Caminho do Mar, e passagem obrigatória para quem viajava entre São Paulo e Santos). No Alto da Serra, o Pouso Paranapiacaba (Casa de Pedra) torna-se um local de contemplação. Era comum a passagem de visitantes por ali durante o dia e durante a noite.

São Bernardo, já teve várias épocas, e vários tipos de turistas, que aproveitavam aqui diversas atrações que o pequeno lugarejo, na época considerado “interior” (contradizendo totalmente o sentido inicial de “interior” – termo usado para designar o que estava além do litoral). Mas hoje, o que sobrou foi degradação, e uma sombra do que tudo isso representava antigamente. Os Pescadores ainda estão aí, os visitantes da Rota dos Restaurantes (ou Colônias) também, mas tudo decaiu.

Quem recebe o turista hoje, são as ruas mal cuidadas do Bairro Demarchi. Esburacadas, feias, sem trato urbanístico, repletas de fiação exposta, poluídas visualmente. Ali, não existe absolutamente nada que lembre o passado do lugar, praticamente nenhum ponto de interesse para o turista, que vê no local apenas uma avenida feia que tem um bom restaurante. Dentro dos restaurantes, as famílias ainda guardam uma lembrança de como era tudo aquilo no passado, mas as administrações municipais, não ajudam.

Na Represa: Poluição, favelas infestando as margens, e nos pontos de passagem dos pescadores (como o porto das balsas), uma infestação de barracas que vendem alimentos e outros gêneros sem a mínima condição de higiene, sem a mínima organização. Os Barracos existem em profusão.

E a Vila Balneária? Quem se aventuraria ali na entrada da Estrada do Vergueiro com aquela invasão terrível que só contribui para a poluição do manancial que fornece a água que bebemos (e a encarece)?

A Prainha do Riacho Grande, tão estragada quanto a Praça Lauro Gomes, só que ainda mais desorganizada. Barracas, camelôs, ruas de terra, e nenhuma infra-estrutura. O Clube de Regatas Lauro Gomes abandonado, sem o remo, enquanto na Capital os remadores só tem a raia olímpica da USP. Será que São Bernardo e o velho Regatas não poderiam sediar um centro de formação de atletas do remo? Esporte outrora tão popular e hoje em plano infinitamente inferior.

Pensar em revitalizar a Vera Cruz, em construir um Museu do Automóvel, são atitudes muito nobres, mas por que não tratar melhor o turista que ainda tenta visitar São Bernardo do Campo? Fazer com que ele conheça a história do lugar? Dar um trato melhor para as ruas, para as avenidas?

Fica a minha humilde sugestão.

Ah, e as famílias de Santos hoje ficam em Santos mesmo.

quinta-feira, 24 de setembro de 2009

Lauristas x Terezistas



Imagens: Tereza Delta e Lauro Gomes - Acervo PMSBC

Em tempos de ebulição política, de discussões polêmicas na câmara de vereadores da cidade, falamos da principal refrega política da História de São Bernardo do Campo, a briga entre os “Lauristas” e os “Terezistas”.

Para o São-Bernardense mais antigo, os dois termos são bastante familiares, mas para os São-Bernardenses de hoje, são definições bem estranhas, mas que definiam muito bem a “bipolaridade” política da cidade em seus primeiros anos de recuperação da autonomia.

Voltemos no tempo: Corre o ano de 1944. Neste ano, São Bernardo recuperaria a sua posição como município depois de travar uma imensa batalha burocrática, a batalha pela sua “emancipação” de Santo André, que havia sido imposta ao município que sempre foi a “cabeça” da região em 1938, debaixo de muitos protestos. O Líder emancipacionista, o banqueiro Wallace Cochrane Simonsen, seria nomeado prefeito da cidade, e lutava para organizar uma estrutura administrativa. Pensem: Não havia sequer uma prefeitura, o governo municipal não tinha nada, nem sede, nem arrecadação, absolutamente NADA!

Daí, podemos imaginar o quão árdua foi a tarefa de Simonsen (ou “Simos”, como os “conterrâneos” chamavam o “inglês”, muito querido pela população). Para complicar, o Brasil atravessava o período da segunda guerra mundial, e o resultado disso era: Escassez de alimentos, que eram racionados, e esse racionamento era controlado pela prefeitura, de maneira não muito organizada, pois os comerciantes colocavam em prática um “mercado negro” de itens de primeira necessidade, que escondiam em seus estabelecimentos e depois vendiam a preços muito elevados. Na lei da oferta e da procura, era assim que o comerciante menos honesto arrecadava mais com o sofrimento alheio. A Prefeitura, fazia o que podia.

Ainda no início dos anos 40, chega a cidade uma família de São Paulo: Maurício Caetano de Castro e sua esposa: Tereza Delta. Uma mulher muito bonita, que tinha como passatempo a equitação, prática que exercia pelas ruas da cidade pacata da época. Tereza e seu marido moravam no atual Paço Municipal, na casa que hoje é a sede da Guarda Civil Municipal. Certo dia, enquanto Tereza cavalgava pela Rua Marechal Deodoro, reza a lenda que um indivíduo teria feito um “gracejo” com a bela moça, Tereza não teria gostado, e desceu para ouvir as explicações do indivíduo, que certamente não esperava aquela reação. Como na cidade pequena de outrora as notícias corriam rápido, logo Tereza ganhou fama de mulher corajosa, que metia medo em muita gente.

Com esta fama, algumas mulheres da cidade foram procurá-la em sua casa, pedindo a sua participação em uma reclamação que fariam a um comerciante, que segundo elas, escondia gêneros alimentícios em sua “venda”. Tereza aceitou, e junto com as tais mulheres, entrou porta adentro intimando o comerciante, que intimidado “fez aparecer” várias latas de óleo. Com essa atitude, Tereza foi alçada a uma posição que ela mesma não esperava alcançar: A de mulher batalhadora, preocupada com o povo, e com muita fibra. Foi a “deixa” para a intrépida mulher se envolver na agitada política local.

Pouco depois, Tereza seria nomeada prefeita de São Bernardo do Campo, mais precisamente em 1947. Depois foi eleita vereadora, e foi presidente da casa, que governou com astúcia, habilidade, e principalmente com muito conhecimento do regimento interno. As sessões na época eram bastante concorridas pela população, que comparecia em peso à sede da antiga câmara, na Rua Marechal Deodoro, instalada em um salão cedido pela Família Pelosini.

Com Tereza, muitos políticos “forasteiros” ascenderam na política local, em detrimento aos políticos tradicionais do lugar, o que obviamente gerou descontentamento e uma oposição ferrenha, que não trazia problemas, pois José Fornari governava com maioria na câmara, liderada por Tereza.

Com este conforto, Tereza prepara a candidatura de seu irmão, Edmundo Delta para as eleições municipais de 1951. No entanto, elementos do Partido Trabalhista Brasileiro, que compunha a oposição aos “Terezistas”, movimentavam-se nos bastidores, e fariam aparecer o nome de um novo elemento da política municipal: Lauro Gomes de Almeida. Mas afinal, quem era este Lauro Gomes que registrou a sua candidatura por procuração? A População, ávida por informações, já sabia que ele estava em Paris, em viagem de férias com sua esposa, e que este era genro de Arthur Rudge Ramos, diretor de um grande frigorífico na Capital, Mineiro da cidade de Rochedo, e herdeiro da fabulosa Chácara Rudge Ramos, local que conta com uma porção preservada, e que estava localizado na atual divisa entre o Rudge Ramos e o Taboão, nas proximidades da fábrica da Ford.

A Curiosidade tomou conta do São-Bernardense, que via todos os dias nos jornais da Capital, a propaganda eleitoral do misterioso candidato, que foi então recebido em São Bernardo com a maior das festas. Sua fala grave, seu porte avantajado, tudo isso cativava por demais a população. Lauro Gomes é eleito, e dá início ao “Laurismo”, como ficou conhecida a corrente dos opositores de Tereza Delta, os “Terezistas”.

Em nome desta preferência política, muitas discussões acaloradas aconteceram nos bares da cidade, nas conversas familiares, nos estabelecimentos comerciais, enfim, em todos os locais da cidade. A “Briga” era algo que realmente dividia São Bernardo do Campo nos anos 50.

Lauro Gomes a frente da prefeitura, não ficou conhecido por um político que tinha o “trato” das campanhas com a população, mas iniciou uma gestão que começou a pensar na São Bernardo do futuro, e graças aos esforços empreendidos por ele nos bastidores, algumas montadoras como a Volkswagen escolheram a posição privilegiada de São Bernardo, entre o porto e a capital, para se instalar.

Asfalto, praças, jardins, escolas, postos de saúde... Um prefeito de indiscutíveis obras e de uma vida bastante obscura e conturbada. Praticamente um personagem folclórico da cidade.

Mas pouco antes, ainda em 1950, uma cisão na câmara entre os Terezistas e a oposição, que ainda não era Laurista, teve um desfecho trágico. Tereza saía da sede do partido, nas proximidades do Grupo Escolar (atual Praça Lauro Gomes) quando sua comitiva é abordada por oposicionistas. Começa ali uma discussão, fervorosa, que partiu para as bofetadas. Logo depois, de trás do muro do Grupo Escolar, são disparado tiros. Todos correm. Tereza se salva, mas seu segurança estava morto. O Caso nunca foi completamente esclarecido, e o episódio manchou a curta história política da cidade que recomeçava a traçar os seus destinos. A Imagem de “heroína” e de “protetora dos pobres” fica ainda mais fortalecida, e a fama de rebelde de Tereza, uma pioneira, como a “caudilha de São Bernardo” fica gravada na história.

Lauro foi reeleito prefeito, e morreu, segundo alguns, na cama de sua amante, de um ataque cardíaco. A Versão oficial diz que Lauro morreu no Jóquei Clube de São Paulo, em uma disputa de páreos. Nesta época, já nos anos 60, Lauro Gomes governava a vizinha Santo André, que praticamente suplicou ao prefeito que se tornasse candidato naquela cidade. Lauro aceitou, mas nunca completou o mandato.

Já Tereza deu prosseguimento a sua carreira no legislativo, foi vereadora por diversas vezes, e alcançou a Assembléia Legislativa do Estado. Se afastou da vida pública nos anos 60, dedicando-se a empresa que possuía.

Tiros, atentados, greves diversas, redemocratização... Até o voto fantasma na câmara de hoje...
São Bernardo e a sua conturbada política...

* Bibliografia Consultada: Vila de São Bernardo – Attílio Pessotti

domingo, 13 de setembro de 2009

Primórdios da produção de automóveis em SBC

Para a maioria, a produção de automóveis em São Bernardo do Campo, que caracterizou o município com as alcunhas de “Capital do Automóvel” ou de “Detroit Brasileira” começou em 1959, com a produção do primeiro automóvel pela Volkswagen do Brasil, na inauguração da linha de sua gigantesca fábrica que está até hoje na lateral da Via Anchieta.

Depois dela: Willys-Overland, Mercedes-Benz, Scania, Karmann-Ghia, Ford (no mesmo local da antiga Willys) fizeram a fama da cidade, mas a história não é bem essa, e essa história, conta com duas empresas pioneiras, que nasceram em São Bernardo do Campo e se dedicaram aos automóveis bem antes das “gigantes” citadas acima.

Mas antes de falar delas, é importante diferenciar a “produção” de automóveis da “montagem” de automóveis, conhecida pela sigla CKD, que na prática, significa importar os veículos desmontados e montar em outro local. Assim começou a indústria automobilística em São Bernardo, mais precisamente com duas pioneiras: Brasmotor e Varam Motores.

Em 1948, uma nova empresa pede licença de funcionamento para iniciar as suas atividades na cidade, era a Companhia Distribuidora Brasmotor, que instala seus escritórios e fábrica na Rua Marechal Deodoro, 421 (antigo). A Definição do empreendimento era essa: “Fábrica de montagem de automóveis e caminhões”.

A Brasmotor, foi fundada pelo Boliviano Hugo Miguel Etchenique, que depois de se dedicar a montagem de automóveis de diversas marcas no regime CKD, iniciou a importação de refrigeradores, e posteriormente a fabricação destes mesmos produtos, agora com o nome fantasia “Brastemp”, que se tornou um símbolo nacional. A Empresa existe até hoje, mas não em seu pioneiro local, ocupado pela rede de supermercados Wal Mart, na Praça Miguel Etchenique.

Mas nos primórdios, a empresa montou veículos de diversas marcas, “produzindo” os primeiros VW Sedan (Fuscas) com “certidão de nascimento” Brasileira. Nos anos 50, já não se dedicava a montagem de automóveis.

Já a Varam Motores, iniciou as suas atividades de forma tímida, em 1949 com a instalação de uma bomba de gasolina em São Bernardo. Mais tarde, construiu uma grane unidade fabril, praticamente vizinha da Brasmotor, aonde montou veículos da marca FIAT, Nash (Norte-Americana) e Volkswagen além de outras marcas muito menos conhecidas.

A Varam Motores foi adquirida pela Simca do Brasil, empresa francesa que no mesmo prédio iniciou a produção de modelos que marcaram época: Simca Chambord (sedan que imitava os “rabos de peixe” norte-americanos), Simca Jangada (perua) e Simca Presidente. A Simca, acabou quando o seu controle acionário foi adquirido pela Chrysler, famosa montadora norte-americana que produziu no Brasil a linha “Dodge” (Charger, Polara, entre outros).

No fim dos anos 70, a histórica fábrica da pioneira Varam Motores foi adquirida pela Volkswagen, sua “vizinha da frente” que ali instalou a Volkswagen Caminhões, posteriormente transferida para Resende, no Estado do Rio de Janeiro. Quando a VW caminhões deixou o local, o prédio caiu em situação de abandono, e foi posteriormente demolido, no fim dos anos 90.

A Mesma área acabou sendo invadida pelo Movimento dos Trabalhadores Sem-Teto (MTST), atitude que acabou colocando o terreno em destaque nos principais jornais do país. Pouco tempo depois, atendendo a um pedido de reintegração de posse, a Polícia Militar desocupou o local, que foi totalmente cercado.

Já no Século XXI, as Casas Bahia instalaram ali um centro de distribuição, visando a proximidade com a Via Anchieta (mesmo motivo que levou Varam e Brasmotor a escolherem o local, pelo fácil acesso ao Porto de Santos e a Capital) e com o futuro trecho sul do Rodoanel. No entanto, o velho edifício já tinha sido derrubado.

Já a Brasmotor (Brastemp) vendeu a sua planta industrial para o Wal Mart, e se instalou por pouco tempo na Avenida Rotary, em um prédio bem menor, que foi ocupado também pela TRW (atual Center Castilho). Posteriormente, se transferiu para Rio Claro (SP), já sob controle acionário da norte-americana Whirpool.

A História da Capital do Automóvel, iniciou-se nos anos 40, mais ou menos dez anos antes do que a “grande mídia” costuma citar. Uma marca de pioneirismo para São Bernardo do Campo.

* Foto: Fachada da Varam Motores – Início dos anos 50. (Acervo de Fábio Silva Gomes – Fotografia de Beltran Asêncio)

sábado, 12 de setembro de 2009

A Capital do Automóvel e suas lendas

Hoje, a convite de dois amigos que estão fazendo o seu trabalho de conclusão de curso pela Metodista de São Bernardo, saímos a passeio por locais bem pouco conhecidos de São Bernardo do Campo, locais que para a grande maioria, simplesmente não existem.

O Trabalho trata da vida que algumas pessoas levam nestes locais tão afastados e tão esquecidos. É bom ressaltar que os próprios prefeitos e prefeituras desconhecem na grande maioria das vezes estes lugarejos perdidos.

E Assim encontramos várias pessoas, em mais de 100km de jornada em um único dia, dentro da mesma cidade. Mas o último personagem encontrado, merece destaque.

Quem vê este senhor grisalho, nascido nos anos 30, não imagina que está diante de uma verdadeira lenda do automobilismo nacional. Falamos de Anísio Campos, homem de vários ofícios: Piloto, projetista, arquiteto, designer gráfico, artista plástico... Fomos encontrar Anísio em sua bela casa, em São Bernardo, em uma área próxima à Represa Billings, de difícil acesso.

Anísio iniciou a sua trajetória em São Bernardo nos anos 70, quando adquiriu a sua casa de uma família alemã – “aqui viviam muitos alemães naquela época” conta o próprio, que nos recebeu com a maior cordialidade possível. A Escolha era óbvia: Estava próximo ao Autódromo de Interlagos, e cercado por um verde exuberante, além de ter como cenário a bela Represa Billings se espraiando em suas janelas. Mas, como nem tudo são flores, foi a poluição do manancial que afastou o célebre automobilista de nossa cidade, ainda nos anos 70, quando locou a sua casa para uma família de Minas Gerais, limitando-se a fazer visitas esporádicas ao local. O Motivo da poluição é conhecido por todos: Insistiam em bombear o Rio Pinheiros para dentro da represa, o que matava o manancial e por conseqüência, todos os seus habitantes. Quem não se lembra dos caminhões repletos de peixes deixando as margens da represa?

Nos anos 80, é promulgada a Lei de Proteção aos Mananciais, comemorada em São Bernardo, ela simplesmente proibiu o lançamento dos esgotos do Rio Pinheiros na Represa Billings, e desde então, a represa tenta se recuperar: Já não existe mais o cheiro que segundo Anísio “fazia os olhos arderem” e caminhões basculantes repletos de peixes mortos são coisa do passado. Ainda existem em profusão os loteamentos clandestinos, criticados pelo ilustre morador, mas isso é assunto pra outra conversa.

Em 1993, Anísio Campos radica-se definitivamente em São Bernardo do Campo, e na bela casa monta o seu atelier, sua residência, e deixa em definitivo a Capital para residir na cidade que sempre respirou automobilismo, mesmo que indiretamente.

Em São Bernardo, Anísio trabalhou para a Simca (dos lendários “Simca Chambord”, “Jangada” e outros) e logo após este período começou a definir São Bernardo como a “Capital Política do Brasil”, como ele mesmo gosta de ressaltar até hoje, pois o que acontecia aqui afrontava o autoritarismo que estava instalado nas esferas superiores do poder. Anísio como piloto, conviveu e dirigiu carros que marcaram época ao lado de José Carlos Pace, Wilson Fittipaldi, Emerson Fittipaldi, Francisco Lameirão, Luiz Pereira Bueno, e vários outros “ases” do volante.

Projetou com Rino Malzoni (de quem era amigo pessoal) o DKW Malzoni, sucesso absoluto nas pistas de corrida, além de ter pilotado em equipes precursoras, como a Vemag e a Willys. Junto com o mesmo Malzoni, desenvolveu o lendário “Carcará”, um monoposto criado exclusivamente para se estabelecer um recorde de velocidade oficial, e estabeleceram: 212,903 km/h. Recorde sul-americano e brasileiro para motores de um litro, aspirados. Ou seja, 212 por hora com um carro mil cilindradas, ah, e é bom ressaltar: O Recorde não foi quebrado até hoje!

Pintou o seu primeiro quadro em 1946, e nunca mais parou com os seus trabalhos. Modernos, tridimensionais, bem humorados e mesclando as curvas dos automóveis com as curvas femininas.

E Assim como a cidade, Anísio nunca parou, e não está parado: Continua desenvolvendo os seus projetos, e dá prosseguimento ao seu trabalho formando uma nova geração de profissionais da área. Atualmente também escreve para a respeitada revista Car and Driver Brasil e escreve para o site Óbvio, além de dar entrevistas e consultorias constantes a várias publicações especializadas.

Ainda falando sobre São Bernardo, Anísio diz que gostaria de ver a Billings com a sua orla restaurada, com um belo urbanismo, com mais respeito a natureza exuberante que a cidade ainda possui, e não poupa críticas a como a cidade trata o pouco verde e os poucos cenários deslumbrantes que ainda restam, aonde a marca principal, é o abandono.

Assim como São Bernardo foi pioneira na indústria automobilística, assim como a cidade deu vazão a sonhos e desilusões nesse campo, a mesma cidade guarda um pioneiro, um baluarte acima de tudo. Aonde está a gratidão de nossos governantes que deveriam apresentar a São Bernardo o legado que este homem vem construindo há décadas?

Sempre vale a pena lembrar!

*Imagens:
Foto 1 - Anísio Campos em 12-09-2009 - Foto minha
Foto 2 - Anísio Campos, Emerson Fittipaldi e Jim Russel, em 1970.

segunda-feira, 7 de setembro de 2009

Foi um rio que passou em minha vida

Aproveitando o “gancho” de um excelente texto, publicado em um blog que costumo acompanhar (http://www.blogdogiesbrecht.blogspot.com), pergunto aos São-Bernardenses e aos habitantes e naturais do ABC: Você sabe o nome daquele córrego, riacho, ou pequeno curso d´agua que corta o seu bairro? Provavelmente não!

No início do povoamento de nossa região, estes cursos d´agua eram fundamentais para o desenvolvimento das cidades e vilas, pois era deles que vinha a água que provinha a subsistência do local. E com São Bernardo, não foi diferente.

Desde os tempos de João Ramalho e de sua histórica vila, embrião da cidade que conhecemos hoje, estes cursos d´agua eram procurados para dar suporte aos povoados que iam surgindo. Até hoje, não se sabe a localização exata da vila, mas em todos os locais cogitados, a maioria deles por Teodoro Sampaio e por Affonso de Taunay, a vila se encontrava perto de um destes cursos. Guapituba, Meninos, Carapetuba. Ao longo destes, muito provavelmente, estava a vila que deu origem à todas as cidades do ABC e à capital.

O Guapituba, está em Mauá, é um dos tributários do Rio Tamanduateí, que nasce na mesma cidade, e corre entre as largas pistas da Avenida dos Estados. (em S.Paulo, o nome muda para Av.Francisco Mesquita e para Rua São Raimundo antes de tomar o nome de Avenida do Estado).

Já o Ribeirão dos Meninos, que segundo alguns teve o seu nome trocado, nasce nas proximidades do Jardim Silvina, passa pelas margens da Via Anchieta, até entrar embaixo da Avenida Brigadeiro Faria Lima, no Centro. Ali, ele corre “soterrado”, passando por baixo do Paço Municipal, pela Avenida Aldino Pinotti, de construção recente, até encontrar o Córrego Taioca. Daí em diante, este, que é o curso d´agua que deu origem à São Bernardo faz a divisa da cidade com Santo André e São Caetano, até desaguar no Rio Tamanduateí, nos limites de São Caetano com São Paulo. Ali, os monges beneditinos estabeleceram olarias, que foram a base da economia de São Caetano por longos anos. O mesmo rio, teve o seu vale usado para a abertura do Caminho do Mar, e posteriormente da velha Estrada do Vergueiro, além de também ter dado origem ao Bairro dos Meninos, posteriormente chamado de Rudge Ramos.

O Carapetuba, está no meio da Avenida Ramiro Colleoni (continuação da Avenida Pereira Barreto) na atual Santo André. É o rio que faz uma curva (subterrânea) em frente ao Shopping ABC, debaixo do corredor de tróleibus.

Já o Ribeirão dos Couros, nasce no Bairro Assunção, e corre pelo meio da Avenida Robert Kennedy. Depois do cruzamento com a Avenida Piraporinha, ele faz as divisas de São Bernardo com Diadema e com o Município de São Paulo, passando pelos bairros Jordanópolis, Paulicéia, e Taboão, até desaguar no Ribeirão dos Meninos, na tríplice divisa entre S.Bernardo, S.Caetano e São Paulo. É ele que provoca as enchentes nas pistas da Via Anchieta, e na fábrica da Mercedes Benz do Brasil, fechado em canaletas de concreto, e totalmente assoreado, uma chuva de verão é o suficiente para que o rio devolva à cidade o que a cidade faz com ele.

Temos também o Córrego Saracantan. Imagina onde ele se encontra? Ele nasce nos morros da atual Vila São Pedro, corre por galerias, e entra pelo meio da Avenida Pery Ronchetti, desembocando no Ribeirão dos Meninos debaixo do Paço Municipal. E Depois tem gente que não sabe porque o Centro da cidade inunda!

Temos também os rios Pequeno e Grande, que hoje são represados e formam a Represa Billings, mas que já foram rios no mais absoluto sentido da palavra. A Inundação causada pelo represamento deles, “freou” (ainda bem) o avanço do município em direção à Serra do Mar. O que ainda hoje se entende como Zona Rural de São Bernardo do Campo, só existe graças à barreira imposta pela represa a mancha urbana da cidade.

A Verdade, é que praticamente todos os rios, córregos, ribeirões e demais cursos d´agua da cidade, foram totalmente encurralados, ou simplesmente “escondidos”. Debaixo de avenidas como a Faria Lima, jaz um verdadeiro esgoto fétido, com suas galerias tomadas por sofás, pneus, e lixo de toda a sorte. Quando a prefeitura diz que fará obras no córrego “fulano”, a primeira pergunta de um cidadão que lê a notícia é “mas aonde fica esse córrego?” e o córrego pode passar no bairro em que este cidadão vive...

Taioca, Chrysler, Meninos, Couros, Pindorama, Capivari, Saracantan, Água Mineral, Borda do Campo, Araçatuba, Guapiú (nome anterior ao Bairro dos Meninos, que designava o atual Rudge Ramos, está canalizado sob a Avenida Bispo César Dacorso Filho), Canhema, Camargo, Feita, Jurubatuba, Ourives, Taboão, Lima, Palmeiras... Que seja feita justiça à memória deles, que ontem deram origem a cidade, e hoje, estão poluídos, debaixo de lajes, escondidos da população.

quinta-feira, 20 de agosto de 2009

O Brasão da discórdia

Imagem: Brasão de armas de São Bernardo do Campo



O Brasão de armas do Município de São Bernardo, foi criado em 1920, pelo célebre historiador e heraldista Affonso D´Escragnole Taunay, que criou as armas de várias cidades Paulistas, principalmente das mais relevantes em termos históricos. No Brasão, vemos representada a síntese da história do município, elementos como a Cruz de Santo André, representando a povoação de Santo André da Borda do Campo. Acima da cruz de Santo André, a cruz patriarcal de São Bernardo representa o futuro, o que S.André da Borda do Campo se tornou depois de muito tempo.



No quadro seguinte, vemos representado o “Leão dos Ramalhos”, em alusão ao fundador, João Ramalho. “Defendendo” o brasão, um Bandeirante, representando Ramalho, o “Patriarca dos Bandeirantes” e um índio, representando Tibiriçá, sobro de João Ramalho e senhor da nação dos Guaianazes, que teve um trabalho decisivo no apoio e na consolidação não só de Santo André da Borda do Campo, como na consolidação da própria capital, onde ele e seu povo lutaram bravamente ao lado dos portugueses contra nações hostis.



Além destes elementos, na parte superior do brasão, ainda temos um pequeno escudo azul, com uma flor de lis branca, representando Nossa Senhora da Conceição da Boa Viagem, padroeira de São Bernardo. E Na parte superior da “coroa” prateada, que representa um município, temos o elmo que distingue a família de Martim Afonso de Souza, fundador de São Vicente. Deste, partiu a ordem para oficializar a Vila de S.André da Borda do Campo em 1553.



Na base do brasão, o lema: “PAVLISTARVM TERRA MATER”, ou “Terra-Mãe dos Paulistas”, que recorda a missão inicial de Santo André da Borda do Campo, e sua importância na povoação do planalto brasileiro e paulista, terra mãe do estado e do povo de São Paulo, da interiorização, e das origens da própria capital do estado.



A Primeira lei que oficializa o Brasão, é de 20 de Dezembro de 1926, assinada pelo polêmico Saladino Cardoso Franco, e desde então, este símbolo representa a história e as tradições de São Bernardo.



Mas, em 1938, com o rebaixamento de São Bernardo da categoria de município, e com todo o território sendo renomeado para “Santo André”, o que ocorreu foi um verdadeiro descalabro: A Nova municipalidade mutilou o brasão original, e dele excluiu todos os elementos que representavam São Bernardo, associando o brasão à Santo André, e se apropriando deste.



Em 1944, São Bernardo teve a sua autonomia restaurada, e consequentemente, o brasão original retorna para o seu “proprietário”, com todos os seus elementos originais restaurados. E mesmo com a restauração de São Bernardo, Santo André, agora como município independente, continuou usando o brasão São-Bernardense mutilado propositalmente para representar a sua cidade, em uma tentativa clara de associar a sua história recente à histórica Santo André da Borda do Campo. Taunay, entendia que São Bernardo era a “herdeira” da povoação fundada por João Ramalho, e por isso criou o brasão. Santo André, nasceu por conta da estação ferroviária, como já dissemos aqui em outras oportunidades, e o seu nome apenas homenageia a vila de João Ramalho.



São Bernardo do Campo, também usava como timbre em papéis da municipalidade, um “selo” municipal, representado apenas por um escudo com a cruz de Santo André encimada pela cruz de São Bernardo, e com a listra com o lema municipal na base deste selo. Este selo aliás, pode ser encontrado no piso de mosaico português, que está na entrada da Igreja Matriz, e na própria torre da igreja, em alto relevo.



Esta discórdia em relação ao dístico das duas cidades continuou por muito tempo, até que em 1972, o Município de Santo André troca de bandeira e de brasão, adotando novos símbolos, criados por Octaviano Gaiarsa, com o brasão inspirado no selo que o Município de São Bernardo do Campo utilizava em seus documentos oficiais. Á partir deste momento, São Bernardo abandona o seu selo municipal, e Santo André desassocia os seus símbolos municipais dos de São Bernardo.



Exemplos do brasão de São Bernardo “mutilado”, que foi usado por Santo André por longos anos, podem ser vistos até mesmo na obra de Gaiarsa “A Cidade que dormiu três séculos”, e em diversas placas de inauguração, com a do próprio Paço Municipal Andreense, e da Fundação Santo André.