terça-feira, 18 de agosto de 2009

São Bernardo nas ondas do rádio


Foto: Estúdios da Rádio São Paulo, em 1956. Fotos das rádios do ABC neste tempo, são raras.

Você, habitante de São Bernardo do Campo, faça um teste: Ligue o seu rádio, em FM ou AM, e tente sintonizar uma rádio da cidade. (só valem as “oficiais”)
Ou melhor, busque em sua memória uma rádio oficial de nossa região, você só encontrará em 1570 AM a Rádio ABC de Santo André, pois no resto das freqüências, sintonizamos única e exclusivamente as rádios da Capital Paulista. Parece democrático? Não, lógico que não. Mas nem sempre foi assim.

Nos áureos tempos do rádio, tempos em que a televisão ainda era um artigo de luxo, cada cidade do ABC tinha a sua própria emissora: Em São Caetano, a Rádio Cacique. Em Santo André: Duas emissoras! ABC e Rádio Clube de Santo André. Mas a São Bernardo do Campo, coube o pioneirismo no rádio.

Em 1957, é inaugurada oficialmente a Rádio Independência de São Bernardo do Campo, com o prefixo ZYW-5, prefixo que antes pertencia a uma emissora da cidade Paulista de Capivari. Foi a primeira emissora de nossa região, e com ela e suas parceiras regionais, uma nova geração de renomados radialistas surge em nossa região.

Pela emissora São-Bernardense, a população podia escutar as transmissões esportivas capitaneadas por Rolando Marques (1943-1994), o maior locutor do gênero em nossa região, “A Voz do Grande ABC”. Também existiam as rádionovelas, muito populares antes da “explosão” da televisão no país. As Novelas da Rádio Independência tinham tamanha qualidade, que os criadores das histórias logo seriam cobiçados pelas grandes emissoras da Capital.

Artistas como Adoniran Barbosa, Jerry Adriani, e muitos outros, pisaram nos estúdios da Independência, e do Grande ABC, mais precisamente da Rádio Cacique de São Caetano do Sul, saiu Luiz Lombardi, a famosa voz que é um ícone dos programas de Sílvio Santos até os dias atuais.

Programas como o “Grande Teatro de Emoções”, que popularizou o gênero do “Rádio Teatro”, com peças incríveis escritas por Guido Fidélis e Oswaldo Russi, que mais tarde emprestariam os seus respectivos talentos à Rádio São Paulo. Já pela Rádio ABC de Santo André, ía ao ar aos Sábados, o “Grande Teatro Philips”, com textos de Alves Cabral e Edson Lazari. No fim dos anos 60, as telenovelas colocam fim a “era de ouro” dos “grandes teatros” e das rádionovelas.

O Jornalismo e as grandes coberturas também faziam parte da programação da emissora de São Bernardo do Campo. As Três rádios da região, se juntaram por diversas vezes nos anos 60, formando uma cadeia regional, para transmitir os carnavais das três cidades do ABC, com transmissões feitas diretamente das ruas e dos clubes, onde o povo se divertia na festa de momo.

Isso sem falar na política e na crítica mordaz, muitas vezes anonimamente assinada. Ademir Médici, transcreve para a sua coluna “memória” do Diário do Grande ABC uma delas, que bem relata a situação política de 1958. Assinada por “Cacareco”, nome de um célebre rinoceronte do Zoológico de São Paulo, que fez fama nas eleições, recebendo mais votos do que a grande maioria dos candidatos “oficiais”, o texto diz: “Diadema não pode emancipar-se, de jeito nenhum, porque... já imaginaram se a febre pega também em Rudge Ramos? Valha-me Deus. Arrepio-me só em pensar em tal coisa. Não. Vamos à luta. Um por todos e todos por mim. Vamos falar, gritar, brigar, mendigar o NÃO, pois tenho certeza que os meus cabos eleitorais são capazes, eficientes, são reconhecidos como salvadores das penúrias do povo. Diadema já é nossa, estão esclarecidos que devem ficar com São Bernardo, principalmente agora que falta apenas um ano para eleger-se novo prefeito da cidade." . E Como o próprio Médici conclui: Diadema emancipou-se, tornou-se cidade em uma manobra estranha que comentaremos em outra oportunidade, Rudge Ramos tentou iniciar um movimento semelhante, que não prosperou, e Lauro Gomes elege-se prefeito.

Mais tarde, Edson Danilo Dotto (1934-1997), um dos fundadores do Diário do Grande ABC, inicia a formação de uma cadeia regional de rádio, de propriedade do jornal, convertendo a Rádio Independência de São Bernardo em “Rádio Diário do Grande ABC”. Os potentes transmissores, localizados na altura do Km 17 da Via Anchieta (atrás da Escola Jean Piaget) passam a ser a voz do Grande ABC diante das emissoras da Capital. Mais tarde, bem mais tarde, surge a Diário do Grande ABC FM.

Em 1992, a Diário AM (ex Independência) é vendida a um grupo evangélico. E já por volta de 2001, seus transmissores foram desmontados, e a rádio foi transferida para a Capital. A Diário FM, que ficou famosa graças a transmissão de música considerada “erudita”, mas não clássica, tornou-se Scala FM, foi vendida, e recentemente retornou em outras mãos. A Rádio Clube de Santo André, virou Rádio Trianon, e também foi transferida para a Capital. E a Rádio Cacique de São Caetano, foi transferida para a Legião da Boa Vontade, e também fez as malas rumo a São Paulo. Seus transmissores foram incorporados à Rádio Eldorado AM (estão na Avenida Guido Aliberti, perto do Instituto Mauá) que antes transmitia do Alto da Serra, em São Bernardo, na Estrada Velha de Santos.

A Única que resiste, é a Rádio ABC, que está na Avenida Pereira Barreto, em Santo André. Aos “trancos e barrancos”, ela defende bravamente a mídia radiofônica de nossa região, que antes era tão rica, e agora, é tão massificada pelas rádios da Capital.

Por fim, o ABC também participou, e com louros, da “era de ouro do rádio”.

terça-feira, 4 de agosto de 2009

Série SBC 456 – O Que comemoramos em 20 de Agosto?

Dando início a uma série comemorativa aos 456 anos de fundação da Vila de Santo André da Borda do Campo, embrião de São Bernardo do Campo, fundada em 8 de Abril de 1553, apresentamos alguns textos sobre a formação do Município de São Bernardo do Campo e sobre suas datas comemorativas.

Foto: Centro de S.Bernardo do Campo, com a torre da matriz em construção - 1961.

Geralmente, comemoramos um aniversário na data de nascimento de uma pessoa, ou na data de fundação de uma localidade. Assim sendo, a maioria acredita que em 20 de Agosto de 1553, João Ramalho teria fundado São Bernardo do Campo, e aí está a cidade que foi evoluindo ao longo destes 456 anos e se tornou o que conhecemos hoje. Não é a verdade! Ou melhor, não é correta a afirmação.


O Processo de formação das cidades que formam o que já chamamos de Triângulo Paulista, de Pentágono Industrial, e que hoje conhecemos como Grande ABC, é bastante complexa – e é importantíssimo ressaltar que durante praticamente dois séculos e meio, a região esteve totalmente abandonada.

Em 8 de Abril de 1553, foi oficializada e reconhecida a fundação de Santo André da Borda do Campo, nome que recebeu o aldeamento fundado pelo já citado João Ramalho. Alguns afirmam que a localidade já existia desde 1549.

Em 1560, o governo-geral do Brasil ordena o abandono de Santo André da Borda do Campo, todos os moradores deveriam se transferir para a atual Capital do Estado. Morre Santo André da Borda do Campo. Motivos? Oficialmente, a vulnerabilidade aos ataques de tribos indígenas hostis, ou aliadas a invasores do território brasileiro.

De 1560 a 1717, todo o Grande ABC nada mais era do que um conjunto de imensas fazendas, que por herança foram sendo repassadas a terceiros, retalhadas, divididas, etc. Havia sim alguns pequenos ajuntamentos populacionais, meros lugarejos sem nenhuma importância econômica para a colônia, pequenas casas perdidas no campo, e nada mais do que isso.

Em 1717, por meio da reunião de várias fazendas doadas por fiéis, o Mosteiro de São Bento, de São Paulo, funda duas fazendas na região: São Bernardo e São Caetano. Na Primeira, os beneditinos dedicam-se a agricultura, pois as terras da fazenda mostravam-se próprias para este uso. Já na segunda, os beneditinos passam a produzir artefatos cerâmicos, já que a Fazenda de São Caetano localizava-se no encontro de dois rios (Meninos e Tamanduateí), o solo mostrava-se argiloso, e a argila era de excelente qualidade para a manufatura de telhas e tijolos. Na Fazenda de São Bernardo, ergue-se uma capela, com evocação de São Bernardo de Claraval, monge cisterciense, grande propagador da igreja e da ordem. A Figura deste santo foi e é intimamente ligada à História de Portugal, e ao próprio processo de independência dos Lusos.


Em torno desta capela, o mosteiro ergue a casa-grande da fazenda. Até hoje, especula-se que o local exato da sede, estava em algum ponto da margem do Ribeirão dos Meninos. Ou na confluência atual da Avenida Doutor Rudge Ramos com a Estrada das Lágrimas, ou, o mais provável, no entroncamento da Avenida Senador Vergueiro com a Avenida Kennedy, onde está o Carrefour Vergueiro.


Ao redor da casa-grande nasce um pequeno povoado, formado por escravos, índios assimilados, portugueses e caboclos. Todos eles, servidores da fazenda beneditina.

Como a sede da fazenda estava ás margens do Caminho para Santos (um deles, existiam vários que geralmente se encontravam em pontos distintos), os viajantes costumavam parar na velha capela da fazenda para orar, e pedir proteção na viagem, que era penosa. Geralmente, evocavam Nossa Senhora da Conceição, que graças aos pedidos dos viajantes, tornou-se Nossa Senhora da Boa Viagem. A fé em Nossa Senhora cresce na fazenda, e nasce o desejo de se construir uma capela em louvor a Senhora da Conceição. A Capela, não poderia ser erguida em terras do mosteiro, e desta forma, é estudado o melhor ponto para a construção da nova capela, já fora das terras da fazenda.

O Ponto encontrado, estava ás margens do mesmo Ribeirão dos Meninos, rio acima, em um vale “protegido dos ventos e das tempestades”. Neste ponto, em 1812, conclui-se a primeira capela em louvor a Nossa Senhora da Boa Viagem. No mesmo ano, o Marques de Alegrete eleva São Bernardo à condição de Freguesia do Município de São Paulo. O Ponto de construção desta capela, é a atual Praça da Matriz. A Capela ainda existe ás margens da Rua Marechal Deodoro, antigo Caminho Geral de Santos (ver texto com o título “1553?”, aqui no blog). De 1812 em diante, São Bernardo separa-se em definitivo da velha fazenda dos monges de São Bento.

Em 1867, a São Paulo Railway (Estrada de Ferro Santos a Jundiaí) inaugura a Estação São Bernardo (atual Santo André) distante 8Km da sede do município. Era o local mais próximo da linha. A Estação de São Caetano só seria inaugurada décadas depois. Ao redor da estação, começa a nascer a atual cidade de Santo André.

Em 1877, o Governo Imperial estabelece em São Bernardo um dos primeiros núcleos de imigrantes do Estado de São Paulo (outro é estabelecido em São Caetano, além de mais um no interior e de outro na Capital), a sede do núcleo, ou da hospedaria que selecionava os imigrantes recém-chegados, é instalada no casarão do Alferes Bonilha, velho casarão de taipa (pau-a-pique Paulista) localizado na atual Rua Marechal Deodoro, aonde hoje está a Praça Lauro Gomes. Este casarão foi construído no Século XVIII, e sumariamente demolido no início da década de 1950.

Em 1889, é proclamada a república no Brasil, e em 1890, São Bernardo se torna município, englobando todas as sete cidades atuais do Grande ABC.

Em 1938, com São Bernardo estagnada, o governo revoga a condição de Município, e transfere esta para Santo André, que crescia vertiginosamente. Todo o Grande ABC passa a se chamar Santo André. Era como se São Bernardo passasse a ser um bairro de Santo André depois de ser responsável pela fundação da cidade vizinha. Iniciam-se movimentações no sentido de restaurar a autonomia de São Bernardo.

Em 30 de Novembro de 1944, é criado por decreto estadual o Município de São Bernardo do Campo, desmembrado de Santo André. Em 1º de Janeiro de 1945, o município é instalado. Wallace Cochrane Simonsen, influente banqueiro Paulista, proprietário de terras em São Bernardo (atual Chácara Silvestre), e um dos líderes do movimento de recuperação da autonomia é nomeado prefeito.

Acompanhou o texto até aqui? Se acompanhou, me responda: Você viu a data de 20 de Agosto ser citada em algum ponto do texto sobre as datas-marco de São Bernardo? Não? Explicamos o por quê:

Santo André, o atual município, escolheu 8 de Abril, data de fundação da Vila de Santo André da Borda do Campo (tentativa de associar a sua recente origem a um passado remoto, justificando assim a sua autonomia como município perante a São Bernardo) como data de aniversário. Para não termos os dois municípios comemorando seu aniversário na mesma data, São Bernardo elege o 20 de Agosto como data magna. 20 de Agosto, é o dia dedicado a São Bernardo de Claraval, o importantíssimo santo católico que empresta seu nome a nossa cidade.


Bernardo de Fontaine foi um abade de Claraval, santo e Doutor da Igreja. Nascido em 1090 em Dijon, falecido em 1153 na abadia de Claraval.
São Bernardo fundou 72 mosteiros, espalhados por toda Europa: 35 na França, 14 na Espanha, 10 na Inglaterra e Irlanda, 6 em Flandres, 4 na Itália, 4 na Dinamarca, 2 na Suécia e 1 na Hungria, além de muitos outros que se filiaram à Ordem.
Bernardo morre em 1153 com 63 anos.


Foi canonizado em 18 de junho de 1174 por Alexandre III e declarado Doutor da Igreja por Pio VIII em 1830. É comemorado no dia 20 de agosto.

A Mais popular história a respeito de São Bernardo (o santo) é sobre a sua costumeira saudação. Ao entrar na abadia, costumava-se dirigir a imagem de Nossa Senhora dizendo “ave Maria”. Reza a lenda de que em uma dessas saudações, a imagem teria respondido “ave Bernardo”. Uma imagem retratando esta lenda está pintada no teto da igreja matriz de São Bernardo do Campo, e pode ser visto apenas com uma passadinha por lá

Portanto, 20 de Agosto é sim dia de São Bernardo, mas do santo, não da cidade. No entanto, é justa a homenagem da cidade a um santo tão combativo, envolvido com as causas de sua cidade e igreja, e que combateu reis e papas acusados de corrupção e de excessos. São Bernardo, é um exemplo para o nosso povo. Que o nosso povo, católico ou não, faça juz a este personagem.

segunda-feira, 3 de agosto de 2009

Frase no DGABC - Fim de 1978

“O que espero para o próximo ano? Morrer”.
Júlio Boszczuk, polonês, 75 anos, pipoqueiro da praça Lauro Gomes, em São Bernardo.

sexta-feira, 31 de julho de 2009

O Quase secular futebol de São Bernardo


Foto: Equipe do E.C.São Bernardo - Anos 60 - No velho Estádio Ítalo Setti

Foto: Equipe do Palestra de São Bernardo em 1950.


Em praticamente 20 anos de residência em São Bernardo do Campo, constatei algo básico: A Nossa população é “rotativa”. O que isso significa? Simples: Os São-Bernardenses de outrora, que fundaram a maioria das instituições tradicionais da cidade já morreram. Suas famílias, que nessa antiga cidade tinham grande influência nos acontecimentos e na vida pública, tiveram a sua importância muito reduzida com o acelerado crescimento populacional, e a maioria dessas grandes instituições, ou sucumbiu, ou sobrevive em condições precárias.

E este é o caso de nosso futebol.


Podemos afirmar que o futebol no Brasil nasceu em São Bernardo. Afinal, em fins do Século XIX, quando foi concluída a Vila de Paranapiacaba (Alto da Serra), os ingleses já tinham ali um campo de futebol, e já praticavam o esporte (mesmo com regras distorcidas) antes da primeira partida realizada em São Paulo, por intermédio de Charles Miller. E Paranapiacaba pertencia a São Bernardo.



Mas o futebol chegou aos principais núcleos urbanos do velho município, creio eu, por meio da influência da própria Capital, nos anos 10, quando aqui proliferavam equipes, principalmente em São Caetano, Santo André e São Bernardo. Desta época são os clubes pioneiros de nossa região: São Caetano Esporte Clube e Primeiro de Maio Futebol Clube. Em São Bernardo, o esporte organiza-se de verdade em fins da década de 1910, e início da década de 1920. Nesta época nascem duas grandes equipes: A.A.Internacional e A.A.São Bernardo.



Mas, as duas equipes, que nasceram do futebol de várzea de São Bernardo, tiveram vida efêmera, e já não mais existiam na metade da década de 1920. A “Villa” de São Bernardo ficava sem representação futebolística, e voltava-se para a várzea. Enquanto as equipes dos na época distritos de São Caetano e Santo André cresciam.



Aqui, organizava-se uma boa competição. O Clássico dos “de cima” contra os “de baixo”. Alguns afirmam que os “de cima” eram os moradores da atual Rua João Pessoa, e de todas as outras que estavam “para o lado de cima” da Igreja Matriz. Desta forma, os “de baixo” eram os que habitavam a porção da vila que estava logo abaixo da igreja, nas Ruas Padre Lustoza, Rio Branco (em suas porções inferiores) etc.

Outros afirmam que “os de cima” eram os que habitavam a Rua Marechal Deodoro em sua porção “acima” da Igreja Matriz, no sentido do atual Ferrazópolis. E que “os de baixo” eram os que habitavam a porção inferior da rua em relação a igreja, a porção que ficava em direção ao atual Paço Municipal. Seja lá como for, esta era uma divisão criada apenas para existir a formação de times completos, que pudessem se enfrentar, e não uma divisão motivada pela rivalidade ou por outras questões. E era assim que o futebol da cidade ía vivendo.



Certo dia, ao observar uma dessas partidas, Dante Setti imagina a criação de uma única equipe, que pudesse representar a “sua São Bernardo” nos gramados. Um clube “grande”, e que mobilizasse toda a torcida em torno de um único representante. E Juntamente com Vicente Ragghianti e Itagiba de Almeida, a idéia é levada a frente, e em 3 de Fevereiro de 1928, no Cine São Bernardo, realiza-se uma assembléia que objetivava a fundação de uma nova agremiação. A Platéia se divide entre antigos torcedores do Internacional e da Associação Atlética, que sugerem vários e vários nomes, até que vem a proposta mais coerente: Se é para representar a cidade, o time teria que se chamar São Bernardo! E assim foi! Em 3 de Fevereiro de 1928, funda-se o “Sport Club São Bernardo”, com o negro e o branco em seus uniformes.



Nascia então uma grande equipe, grande e vencedora. O São Bernardo defendeu o orgulho dos moradores da velha “Villa”, transformando-se em uma equipe imbatível, odiada por Sancaetanenses e Andreenses, que depreciavam a vila por seus aspecto rural, que contrastava com a paisagem urbana dos dois distritos, mas que no futebol, nada conseguiam contra os “batateiros” de São Bernardo.



O “Reinado absoluto” do São Bernardo como a única agremiação da cidade, como sonhava Dante Setti, durou até 1935. Em 1935, Alfredo Sabatini, filho de Samuel Sabatini (dono de um armazém) e que era jogador do São Bernardo, foi preterido de um jogo da equipe fora da cidade, sem aviso prévio, o que provocou revolta em Alfredo e em seu pai, que resolveram fundar uma nova agremiação para “bater neles”. “Neles” era o São Bernardo.



Desta forma, nasce em 1º de Setembro de 1935 o Palestra Itália de São Bernardo. O Palestra tinha a pretensão de ser uma “pedra no sapato” do São Bernardo, mas nunca conseguiu esse feito, a rivalidade, que era até grande, não se difundia muito, pois na pequena cidade de então, todos se conheciam, e muitos jogavam pelas duas equipes. Assim, a rivalidade geralmente durava 90 minutos, e depois deles, geralmente quem comemorava era o São Bernardo. Historicamente, a vantagem alvinegra nos clássicos é imensa, e no entanto, isso nunca provocou o desdém dos torcedores do São Bernardo, ou do “Sport”. Cria-se em São Bernardo um novo sentido para a rivalidade futebolística, uma “rivalidade solidária”, pois Palestra e São Bernardo sempre dependeram um do outro, e movimentavam o futebol da cidade. Assim sendo, essa “solidariedade” foi demonstrada em diversas oportunidades, a principal delas talvez, tenha ocorrido nos anos 50, quando o Palestra perdeu o seu campo na atual Praça Lauro Gomes. Ali, a equipe alviverde correu risco de extinção, mas o São Bernardo cedeu o Estádio Ítalo Setti (que ficava no cruzamento da Rua Marechal Deodoro com a Avenida Francisco Prestes Maia) ao rival, para que ele não encerrasse as suas atividades.



Nos anos 40, Getúlio Vargas obriga a nacionalização de todas as instituições estrangeiras, e os clubes que representavam colônias, tiveram que acatar a nova lei. Assim o Palestra Itália da Capital virou Palmeiras. O Hespanha de Santos virou Jabaquara, o Germânia da Capital virou Pinheiros, e o Palestra Itália de São Bernardo... Tirou o Itália e continuou Palestra! Obviamente isso ocorreu pela pequena projeção que a equipe de São Bernardo possuía, mas é bom lembrar que os dirigentes do alviverde procuraram o temido DIP – Departamento de Imprensa e Propaganda do Governo Vargas, preocupados com a nova lei, e receberam sinal verde para prosseguir com o nome Palestra, coisa que o “primo rico” da Capital não conseguiu.



Em fins dos anos 60, o São Bernardo também perde o seu campo. E a partir daí, as duas equipes que já trilhavam o profissionalismo desde 1950, começam a “descer a ladeira”. O Próprio São Bernardo acabou se afastando das competições profissionais, e o Palestra também, depois de algumas tentativas de permanência. Tudo se concentrava no amadorismo, e no esporte amador. No basquete por exemplo, o São Bernardo fez fama com jogadores que são referência para o esporte no Brasil.


Em fins dos anos 70, uma equipe amadora da cidade desperta atenções, era o Aliança Clube do Rudge Ramos, campeão do “desafio ao galo” (o maior torneio de futebol amador do Brasil até pouco tempo atrás) acaba aderindo ao profissionalismo, e desponta como o principal clube da cidade na época (era a grande pedra no sapato do Palestra nos campeonatos amadores da cidade – o São Bernardo vivia péssima fase no futebol, que estava praticamente inativo). Ainda nos anos 70, o Aliança conquista o troféu ACEESP (Associação dos Cronistas Esportivos do Estado de São Paulo) e bate ás portas da primeira divisão do Campeonato Paulista, foi por pouco, mas muito pouco, que São Bernardo não viu o seu primeiro clube disputando a principal divisão do futebol Paulista.

No entanto o Aliança era uma mera equipe de várzea, sem patrimônio nenhum, e em fins dos anos 70, o São Bernardo absorve a equipe de Rudge Ramos e volta ao profissionalismo. Nos anos 80, em pelo menos duas oportunidades, o “Sport” esteve ás portas da Série A1. Estas foram e são até hoje as melhores colocações conquistadas por uma equipe de São Bernardo do Campo no futebol. O Palestra, vivia dias difíceis, mas fazia sucesso no campeonato amador da cidade, e os jogos, os clássicos entre as duas equipes ainda lotavam o Baetão!


Nos anos 90, o São Bernardo vai aos poucos desaparecendo das competições profissionais, e em 2002 faz a sua última participação, participação vergonhosa, diga-se de passagem. Em seus últimos tempos, o público já rareava, e poucos se lembravam do passado de glórias da equipe.


O Palestra, está aí até hoje, disputando a quarta divisão do campeonato em um de seus melhores anos, graças a uma feliz parceria com o Santo André, herdeiro dos grandes (e massacrados) rivais dos São-Bernardenses.
Perdeu-se no tempo e na memória de nossa população um dos mais tradicionais clássicos do futebol de São Paulo.


Para saber mais sobre o São Bernardo: www.qsl.net/pu2tjq/ecsb
Para saber mais sobre o Palestra: www.freewebs.com/palestrasb

segunda-feira, 27 de julho de 2009

Um Trem Passou por aqui...

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Foto: Planta do Nova Petrópolis (Clique para ampliar) com as linhas de bonde.


1921: A Saturação dos bairros operários da Capital Paulista, acelera o crescimento do antigo Município de São Bernardo, cortado pela São Paulo Railway, e com grandes terrenos (baratos se comparados aos da Capital) a disposição. Fator que atraiu um sem número de indústrias, principalmente para os Distritos de Santo André e São Caetano, atravessados pela linha férrea, e mais próximos a Capital.



Estes dois distritos já contavam na época com uma grande população, e movimentavam praticamente 86% da economia do Município de São Bernardo. A Vila de São Bernardo (atual S.Bernardo do Campo) ás margens do esquecido Caminho do Mar, assim como a estrada, caiu no esquecimento, e continuava concentrando apenas uma boa parcela de produtores rurais, a indústria moveleira, que já era forte na época, e apenas alguns estabelecimentos fabris. Praticamente nada se comparado aos dois bairros que na época eram os “primos ricos”.



Com as grandes indústrias, forma-se uma classe operária poderosa na região (numericamente poderosa, não financeiramente) que padece com os problemas de infra-estrutura, mal administrados pelo governo municipal. A Falta de saneamento, de calçamento, de redes para distribuição de água, além de outros itens, abre espaço para a especulação imobiliária também no campo residencial, o que dá início a formação de vários loteamentos pelo vasto território (806Km2) do velho município.



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Neste ano, os irmãos Hippolyto Gustavo Pujol e Ernesto Pujol, que já eram proprietários de terras na região, formam uma empresa com sede na Praça da Sé, na Capital Paulista: A EISB – Empreza (grafia da época) Imobiliária de São Bernardo, que conforme a tendência da época, inicia a formação de loteamentos baseados no conceito de “cidade jardim”. O Primeiro empreendimento começa por uma área de 6 milhões de metros quadrados, entre a Estação de São Bernardo (Santo André) e São Caetano. Nesta área, são formados os loteamentos dos atuais bairros Industrial, Operário, Jardim, Campestre, Santa Maria, Saúde, e Utinga. Todos com destinos bem específicos.



Jardim, Campestre e Utinga, eram destinados a moradias para a classe mais alta da população. Operário, Santa Maria e Saúde – para a moradia mais popular, formada pela própria classe operária. E Industrial, que margeava a ferrovia (Avenida Industrial) para empreendimentos industriais. Todos estes bairros alcançaram desenvolvimento formidável, e estão entre os melhores bairros de Santo André e São Caetano até hoje.



Mas a Vila de São Bernardo também recebeu o seu loteamento em 1925. Em uma área de 3 Milhões de metros quadrados, nasce o Nova Petrópolis, que assim como o Bairro Jardim, também era destinada a uma classe mais alta. O Nova Petrópolis ocupou uma bela colina que se localizava “atrás” do atual Centro de São Bernardo do Campo. Ruas largas e calçadas, redes de esgotos, redes de água, tudo pronto no loteamento, que também era inovador em termos comerciais, pois seus lotes eram vendidos diretamente aos interessados.



PhotobucketAlém disso, a EISB também oferecia o seu próprio sistema de transportes, entre os loteamentos que constituíra, ligando estes ás estações ferroviárias de São Caetano e São Bernardo. Era uma pequena ferrovia, um sistema de linhas de bondes, operados por bondes a gasolina da marca Renault, e que contava também com uma pequena locomotiva a vapor, que só era utilizada na Vila de São Bernardo.



Existia uma linha que ligava a Estação São Bernardo e a Estação São Caetano, passando pelos bairros constituídos pela EISB, passando pela atual Avenida D.Pedro II em Santo André, e dando uma volta por dentro dos bairros, atingindo a Estação São Caetano.



Já na atual São Bernardo do Campo, a linha férrea fazia o percurso aproximado da atual Avenida Pereira Barreto. O Traçado aproveitava os vales do Rio dos Meninos e do Córrego Taioca antes de percorrer a grande elevação da avenida após a atual divisa com Santo André, alcançando a estação ferroviária. Em São Bernardo ela entrava dentro do Nova Petrópolis, passando pela atual Avenida Wallace Simonsen, fazendo uma volta pelo bairro, e retornando a Rua Marechal Deodoro pela Avenida Imperatriz Leopoldina. Ela percorria todo o trecho movimentado da Rua Marechal Deodoro, passava em frente a Praça da Matriz, e tinha a sua estação final nas proximidades da atual Praça Lauro Gomes.



PhotobucketA Linha também contava com uma pequeno ramal que atendia a Fábrica de Móveis Pelosini. E era para este serviço que a EISB usava sua pequena locomotiva a vapor, uma legítima “Maria-fumaça” em miniatura, que por vezes rebocava o bonde com destino a Santo André. Em 1925, a linha significava uma importante integração com o Distrito de Santo André, e diminuiu consideravelmente a dificuldade que os São-Bernardenses enfrentavam para atingir a atual estação Santo André.



Em 1929, com a quebra da bolsa de Nova Iorque, e com o declínio da economia cafeeira, a EISB fecha as portas e encerra as suas atividades. O Transporte é paralisado, e posteriormente os trilhos são arrancados da Rua Marechal Deodoro e de toda a cidade. Para substituir o velho bonde, começam a surgir empresas de ônibus que fazem a ligação entre S.Bernardo e Santo André, pioneiras das atuais empresas que ainda fazem o mesmo trajeto, agora em ônibus modernos, de última geração.




PhotobucketPraticamente 80 anos depois, se cogita uma espécie de bonde moderno (o VLT) para ligar São Bernardo a Estação de São Caetano, e revive-se o velho bondinho. Sinal dos tempos! Será que sai ou fica só na promessa?

Aguardaremos.



Bibliografia e imagens: SPR – Memórias de Uma Inglesa – Moysés Lavander Junior e Paulo Augusto Mendes.

domingo, 26 de julho de 2009

DER – Uma favela no coração da cidade

Quem é de São Bernardo, certamente já ouviu falar ou já esteve, ou até mora no chamado “DER” ou “favela do DER”. Como a palavra “favela” se tornou ofensiva, vou procurar restringir o uso dela neste texto.



Para quem passa pela Via Anchieta, e não tem contato com a cidade, o DER é o conjunto de casas humildes que pode ser avistado do lado esquerdo da pista, no sentido de quem vem da Capital e segue em direção a Santos.



Por dentro da cidade, o DER margeia todo o Centro, desde o Estádio Primeiro de Maio, até a Rua Newton Prado. Mas aí surge a pergunta: Como deixaram isso acontecer em pleno centro de São Bernardo do Campo?



A Resposta é histórica! Voltemos a década de 1930. Durante o início dela, já se discutia fervorosamente a idéia da construção de uma nova via entre São Paulo e Santos, pois o antigo Caminho do Mar, pavimentado em seu trecho de serra em 1922, já não suportava o tráfego pesado. Além disso, era sinuoso e perigoso, em seu trajeto antigo, “dependurado” na encosta da serra do mar. Em 1940, começam as obras de uma rodovia que iria se tornar um marco da engenharia brasileira, e um divisor de águas na história de São Bernardo do Campo: A Via Anchieta. Partindo do Ipiranga, em pista dupla, ela atravessava suavemente o planalto, e rasgava a serra do mar com curvas consideradas na época extremamente suaves. Além disso, o seu trecho serrano tinha um aclive/declive muito suave se comparado ao do Caminho do Mar, uma verdadeira pirambeira!



Para construir a rodovia, um verdadeiro exército de trabalhadores foi mobilizado pelo Governo do Estado de São Paulo, trabalhadores vindos de todas as partes construíam estradas de serviço que se tornaram avenidas da cidade, e rasgavam a nova via que escoaria o produto de São Paulo rumo ao porto. Travava-se aqui uma epopéia semelhante a da construção da São Paulo Railway no século XIX.



Como a obra exigia atenção durante 24 horas, acampamentos foram construídos para os funcionários, e um dele, no atual km 20 da rodovia – o acampamento do DER. Porque DER? DER é a sigla do Departamento de Estradas de Rodagem do Estado de São Paulo. Neste acampamento, em casas de madeira, algumas com quartos “comuns” ou coletivos, e em outras menos modestas, estes operários vindos de vários pontos do país encontraram a sua morada durante as obras da nova rodovia. Na época, o centro de São Bernardo ainda não tinha chegado até as proximidades do acampamento, e ficava restrito ao entorno da Praça da Matriz.



Em 1947, é inaugurado o trecho de planalto da Via Anchieta, entre o Ipiranga (Sacoman) e o Alto da Serra. A Descida da serra era feita em mão dupla. A segunda pista, como já citei em outro texto, seria inaugurada apenas em 1953.



Com a inauguração da rodovia, o Departamento de Estradas de Rodagem só esqueceu de uma coisa: Providenciar um destino para os operários. Sendo assim, a maioria optou por viver ali mesmo, no acampamento. Alguns voltaram. E os que ficaram trouxeram ou constituíram as suas famílias. Durante os anos 60, o local vive a sua primeira expansão, assim como a própria cidade, que já crescia vertiginosamente. Nos anos 70, um verdadeiro “boom”. Neste período, e durante os anos 80, a violência marca a comunidade. Nestes anos, o DER assustava com os seus índices de criminalidade.



Nos anos 70 e 80, as casas (alojamentos) do antigo acampamento, já estão em condições precárias, e totalmente cercados por outras habitações, casas de gente humilde, construídas sem o mínimo de planejamento urbano, e que configuraram um dos maiores problemas de habitação da cidade neste período (ao mesmo tempo, os morros verdes que cercavam a cidade também são dominados pelas favelas, conseqüência do “sonho” provocado pela expansão da indústria automobilística, que com a crise dos anos 80, fez muita gente comer o pão que o diabo amassou em São Bernardo).



No fim dos anos 70, Centro e DER já estão “colados” um ao outro. Nos anos 90, a comunidade vive a sua última grande expansão, no sentido da Via Anchieta. No fim dos anos 90, o CDHU, companhia de habitação do governo do estado, inicia uma parceria malfadada com a Prefeitura de São Bernardo. Poucas unidades habitacionais foram concluídas na tentativa de resolver o problema da habitação desordenada do DER, e claro, de suas áreas de risco.



Hoje, a violência já não marca mais o DER, que de um “bico” do Centro encravado ás margens da Via Anchieta, passou a ser atravessado por vias importantes e a ter acessos a outros pontos da cidade. No entanto, sua população ainda aguarda soluções por parte da prefeitura em matéria de educação, transporte coletivo, habitação e saúde pública.



O DER, foi a primeira favela de São Bernardo do Campo, e surgiu por um mero acaso, se expandiu desordenadamente como grande parte da cidade, e hoje espera por soluções que ponham fim a triste sina do lugar. Que dias melhores venham para a comunidade!

sexta-feira, 24 de julho de 2009

70 Anos de "jornalecos"

* Hoje não tem foto!

Na década de 1930, os jornais se tornam um veículo de informação com uma abrangência mais popular, e ganham as pequenas cidades, depois de já terem há muito ganho as grandes. A Circulação dos jornais é que era diferente: Nestes tempos, era semanal (o mais comum em nossa região), quinzenal, ou até mesmo mensal.

Com a popularização das tipografias, jornais pululavam até mesmo em São Bernardo, na grande São Bernardo de outrora (sem o “do Campo” – que englobava todo o ABC). E da mesma forma que estes jornais apareciam, eles desapareciam, do dia para a noite, sem deixar vestígios, e também sem deixar lamentos profundos.

Na Época, ainda não era muito ventilada a idéia de “liberdade de imprensa” ou de “imprensa parcial” (conceito bastante discutível – inexistente aliás). Certas correntes da sociedade viam nos jornais uma oportunidade de propagar as suas idéias, lutas, reivindicações, e claro, os seus candidatos.

Com exceção feita aos grandes jornais, que já circulavam na época, a imprensa era literalmente “marrom”, e trabalhava em benefício de alguém, geralmente um político ou um partido. Assim foi com vários periódicos que circularam pela nossa região, cito: “O Imparcial”, “O São Bernardo” (depois “O Santo André”), “Borda do Campo”, entre outros. Nessa velha São Bernardo, a política se dividia em duas frentes: Flaquistas, ou seja, adeptos dos familiares do velho “coronel” Fláquer – E os “outros”. Os outros, eram os que tinham predileção pela corrente política oposta a dos Fláquer, esta, variava conforme a época. Em determinado período, ainda existiram os comunistas (que elegeram Armando Mazzo como prefeito de São Bernardo pelo PCB – Mazzo ganhou, mas foi cassado, nunca assumiu, e foi o único prefeito eleito pelo PCB) e os integralistas, militantes de extrema direita, seguidores da “sigma” de Plínio Salgado e de um movimento com fortes inspirações fascistas. Estes dois últimos travavam batalhas nas ruas dos distritos de São Bernardo de forma corriqueira. Quando acontecia, socos, pauladas e cacetadas sobravam para quem estivesse no meio.

Era comum então, os Fláquer dominarem um ou mais jornais, e os opositores, algum outro. Enquanto uma corrente dominava a política da região, seu periódico distribuía elogios e gentilezas à administração pública – geralmente usando palavras como “progresso”, “labor”, “valor”, “virtudes” e outras mais – um puxa-saquismo enfadonho.


Já a outra corrente, a opositora, criticava ferrenhamente a administração, e não poupava ninguém! Para os opositores, São Bernardo vivia em uma espécie de idade média – Tudo por aqui se resumia em trevas, obscuridade, atraso, corrupção, etc. E assim se fazia o revezamento, conforme a corrente dominante.


Algumas brigas se tornaram famosas, e célebres. Como a briga que se travou entre o periódico editado em Santo André, e o periódico pró-autonomia de São Bernardo. Enquanto um dizia que a retomada da autonomia em São Bernardo condenaria aquela vasta porção de terra ao atraso, o outro exaltava os emancipacionistas, conclamando os São-Bernardenses a lutar pela liberdade. Isso em 1943/44. Quando São Caetano resolver se separar de Santo André (São Caetano brigava por sua autonomia desde a década de 1920), lançou-se o Jornal de São Caetano, propaganda oficial dos autonomistas. Enquanto isso, a Família Fláquer bombardeava contra a autonomia de São Caetano nos jornais Andreeenses, usando os mesmos pretextos e palavras: Atraso, aumento de impostos, etc. Quando o “Estado Novo” de Getúlio Vargas entrou em vigor “pra valer”, a atuação do DIP – Departamento de Imprensa e Propaganda começou a atuar fortemente e até a encorajar o “empastelamento” de jornais opositores ao regime de Vargas – pra quem não sabe, empastelamento era na prática a depredação da redação do jornal que era considerado “inimigo”. A Prática era mais comum no início do Século XX, mas se arrastou por um longo período até cair no esquecimento.


Com a atuação do DIP, os “jornalecos” do ABC caíram no esquecimento, comunistas e integralistas foram colocados na ilegalidade, e esse regime praticamente ditatorial colocou uma mordaça em nossa imprensa regional. Se por um lado a atitude trouxe paz ao ABC de outrora, ela também tirou o costume de se envolver em política que existia na região. A Política era discutida em todos os ambientes, e como a ditadura (silenciosa) imperava, e um único regime/partido vigorava, não havia mais o que se discutir.

Mesmo assim, muitos “caciques” da região continuaram desfrutando de poder, afinal, essa manobra é conhecida: Torne-se amigo do ditador, leve o seu apoio e o apoio de seus correligionários que ele certamente te dará “benefícios”. Entendeu? Claro que entendeu!


Dos anos 30/40 até hoje, já se vão mais de 70 anos. E Hoje, ao circular pelo meu bairro, consigo um “exemplar gratuito” de dois periódicos que circulam em São Bernardo do Campo, na São Bernardo do Campo de 2009, do Século XXI. No Primeiro que começo a folhear, com um cabeçalho onde a cor vermelha domina: Elogios rasgados a administração municipal. Quem o lê, acha que São Bernardo vive um período iluminista, bonito, colorido. A População nunca foi tão feliz! Já no outro, dominado pelo azul e pelo amarelo: Críticas, corrupção, violência, falta de moradia. Mas será que ambos falam da mesma cidade? E não é que falam!


Realmente. A Nossa mídia não mudou nada em 70 anos.


* Antigamente a população sabia a quem os “jornalecos” serviam, mas hoje... Acredita em qualquer coisa... Seja de que lado ela venha.