quarta-feira, 22 de julho de 2009

O São-Bernardense vai ao cinema!


Foto: Cine Enrico Caruso, depois Cine São Bernardo -
antes da reforma. Foto dos anos 30 - autor desconhecido

São Bernardo, início dos anos 20 do Século XX.


Um lugarejo pacato e rural, que ainda não havia despertado para o que conhecemos como “progresso”. Uma viagem à Capital, era demorada e cansativa, afinal os sacolejos dos antigos caminhos de terra que ligavam as duas localidades, não eram domados com facilidade. Rádio? Um artigo de luxo, que ainda dava os seus primeiros passos no país. Neste tempo, ainda não existia nenhuma emissora de rádio no Brasil.



Foto: Cine Enrico Caruso - Depois Cine São Bernardo. Imagem da parte interna.

Saber “das coisas” era algo complicado. As notícias eram propagadas pelos poucos jornais que circulavam na época em São Bernardo. A Maioria deles, quinzenais ou mensais, e geralmente meros veículos de propaganda ligados a determinados partidos políticos, ou a “caciques” de nossa região.

Vivia-se uma vida bastante restrita no quesito “informação”.

Mas, uma moda vinha se espalhando rapidamente pelo país desde o início do Século XX: O Cinema, ou cinematógrafo.

Na Capital, as salas de cinema multiplicavam-se rapidamente, e a grande “febre” possibilitou a abertura de salas menores ou mais modestas, em vilas, bairros e cidades do interior, a baixos custos, para o deleite da população.

Em São Bernardo, não foi diferente. No início da década de 1920, inaugura-se a primeira sala de cinema da cidade: O Cine Enrico Caruso, na Rua Marechal Deodoro (nº1229). Uma típica sala de cinema interiorana, com capacidade pequena, cadeiras duras, e poucos luxos. No entanto, em um lugar onde as novidades sempre demoravam muito mais para chegar, a nova atração teve sucesso estrondoso!

Além de sediar exibições de filmes, inicialmente mudos, e geralmente com temas que agradavam a grande colônia italiana da cidade (o próprio nome do cinema – Enrico Caruso – é homenagem a um grande personagem italiano) a sala também sediava encontros importantes da comunidade São-Bernardense. Neste cinema, foi fundado o Esporte Clube São Bernardo em 1928, e ali, vários bailes e outros eventos beneficentes ou não “agitavam” o pequeno núcleo de moradores.


O Cinema Enrico Caruso teve vida longa, e mudou de nome algumas vezes. Embora o tenor Italiano tenha emprestado seu nome à sala inicialmente, este cinema ficou mais conhecido por “Cine São Bernardo”, nome que ostentou por mais tempo, sendo o mais antigo cinema da cidade. Em 1952, ele passou por uma grande reforma, pois São Bernardo (do Campo) crescia, a população aumentava, e a concorrência já existia. Vale ressaltar que após a reforma, o antes acanhado cinema passou a contar com uma capacidade para 1.100 espectadores.


Falando em concorrência, o Cine São Bernardo recebeu a grande reforma em 1952 quando foi comprado pela Empresa de Cinemas Eldorado, que já era dona do maior e mais novo cinema da cidade, e talvez, o mais famoso e emblemático: O Cine Anchieta, localizado na mesma Rua Marechal Deodoro, mas no nº 919. O Cine Anchieta tinha linhas modernas para a época, instalações amplas, e capacidade para 2069 pessoas! Está certo, 2069 pessoas na época, não era nenhum “colosso” de cinema. Até mesmo Santo André e São Caetano tinham cinemas maiores como o Vitória (S.Caetano) e o Tangará (Sto.André), mas o Anchieta era o maior de São Bernardo e isso bastava!


Foto: Fachada do Cine Anchieta, na Rua Marechal Deodoro. O Maior da cidade!

Na década de 1950, as salas de cinema ainda estavam a pleno vapor, pois apesar do rádio e dos jornais já serem objetos corriqueiros de informação, a televisão ainda engatinhava, e assim como o rádio nos anos 20, ter um aparelho de TV na década de 50 era luxo para poucos!

O Cinema era então o meio de comunicação visual das massas. Antes dos filmes, eram exibidos “cine-jornais”, geralmente pequenos documentários sobre uma partida de futebol, ou até sobre fatos desatualizados, mas que eram acompanhados com atenção total por conta da imagem, o grande diferencial!

O Problema dos cinemas “de rua”, eram a pequena quantidade de salas. Enquanto hoje, cinemas de shoppings possuem até 15 salas, o cinema de rua possuía apenas uma, o que limitava a quantidade de filmes a serem exibidos. Os cinemas que possuíam “balcões” (aquela arquibancada superior, acima da platéia) ainda conseguiram por meio do fechamento destes, a criação de mais uma sala, mas os que não tinham restringiam a exibição de filmes e iam perdendo espaço para os cinemas dos shoppings.

No Entanto, São Bernardo resistiu mais tempo a essa tendência, pois aqui os shoppings tardaram um pouco a chegar. Mas, nos anos 80, com a popularização dos vídeo-cassetes, nenhum destes tradicionais cinemas da cidade resistiu. Uma pena!

O Cine São Bernardo foi totalmente demolido, em seu lugar existe um conjunto de edifícios/lojas. Já o Cine Anchieta, foi fechado, mas seu prédio existe até hoje, ocupado por uma famosa loja, quase na esquina com a Avenida Prestes Maia.

Mas e os bairros?

São Paulo, a nossa capital, assim como as demais cidades do ABC, tinham bairros maiores do que os de São Bernardo, e por este motivo, concentravam grandes salas de cinema, deixando as mais luxuosas para o centro da cidade. O único grande bairro de São Bernardo, na época, era o Rudge Ramos (ou “Meninos”) que ganhou uma respeitosa sala de cinema própria: O Cine Boreal.

Foto: O Jornal noticia com certa ironia a desativação do Cine Boreal, nos anos 70.

O Cine Boreal foi inaugurado no nº 4 do Largo São João Batista (Largo do Rudge), mais precisamente na porção conhecida como “Largo da Capela” em 1950. Era um pequeno cinema de bairro com capacidade para 650 pessoas, e pertencia a Geraldo Rosão e Loris B.B. Santarelli. Teve um tempo de vida bastante razoável se levarmos em conta os problemas citados acima, que acabaram com praticamente todos os cinemas de rua. Foi fechado em 1970, e no mesmo prédio, um supermercado foi aberto. O Prédio, sofreu um incêndio em 1988 e foi demolido. Em seu lugar hoje, está uma loja do Pão-de-Açúcar, fechada. Era um marco do Rudge Ramos.

Atualmente, vivemos cercados de informação, ela é bombardeada sobre nossas cabeças, vinda de todas as direções. Estes cinemas, embora para muitos sejam apenas prédios velhos e caídos, foram marcos na vida de muitos São-Bernardenses. Ali, o primeiro beijo, o primeiro filme, um momento inesquecível foi vivido, pois é isto que o cinema proporciona ou proporcionou a muitos de nós, isso sem falar no convívio social. Nestes prédios, pessoas conheciam-se, encontravam-se e viviam amizades e outros tipos de relacionamento, que caracterizam uma comunidade.

Hoje, diante do seu “cinema pessoal”, em casa, você mal conhece o seu vizinho... Tempos modernos?

Fotos e dados: Atílio Santarelli – Em Cinemas Antigos do Brasil (Ver link nos “favoritos” do blog, e não deixe de visitar!)

terça-feira, 21 de julho de 2009

Todos os caminhos levam à Marechal


*Foto: Rua Marechal Deodoro, em 1895 - Autor desconhecido. Parecida com a de hoje?

Caos, degradação urbana, gente em excesso, comércio e mais comércio. Quem passa pela Rua Marechal Deodoro, no coração de São Bernardo do Campo nos dias de hoje, certamente faz isso por obrigação, e não por prazer ou lazer. A rua se transformou em um verdadeiro inferno, e se tornou o coração do centro da cidade, “onde se encontra de tudo” em São Bernardo.


Mas, você pode imaginar como era a Rua Marechal Deodoro... Vejamos... Em 1890? Provavelmente não...

Em 1890, ano em que São Bernardo foi transformada em município por um decreto da nascente república, graças a influência da Família Fláquer, a Rua Marechal Deodoro era uma estrada de terra, com lampiões a azeite pendurados nas proximidades do Largo da Matriz (Praça da Matriz) onde se localizava o parco comércio existente nessa São Bernardo de outrora. Algumas carroças quebravam a monotonia interminável do lugarejo, que na época era uma típica cidade de interior, e ainda por cima, distante de São Paulo. As duas cidades eram separadas por muito mato e por muitas chácaras.

A Atual Rua Marechal Deodoro, era a antiga Estrada de Santos, ou “Caminho Geral de Santos”, que começava na Praça da Sé em São Paulo, e terminava ás margens do Porto de Santos. Por muitos anos, mais precisamente até 1947, para se ir até a baixada santista, passava-se obrigatoriamente em São Bernardo, o que fez florescer na cidade um certo comércio voltado a estes viajantes, principalmente depois das melhorias realizadas no trecho de serra da hoje conhecida como Estrada Velha de Santos.

O Primeiro núcleo populacional de nossa cidade, estava localizado em outro ponto de nosso território no Século XVIII. São Bernardo era uma vila que se formou dentro da Fazenda de São Bernardo, do Mosteiro de São Bento, e essa vila estava localizada na confluência das Avenidas Senador Vergueiro e Kennedy, ás margens do Ribeirão dos Meninos e também da Estrada de Santos. (sim, a Av.Senador Vergueiro também fazia parte do traçado da estrada velha de Santos, mas isso é assunto para outro texto)

Dentro dessa vila, a devoção a Nossa Senhora da Conceição cresceu, graças aos viajantes que pediam proteção a santa no perigoso trajeto entre o Planalto e o Litoral, os moradores tinham vontade de erguer uma capela em louvor a santa, mas não poderiam fazer isso dentro da fazenda do mosteiro. Desta forma, um novo local foi providenciado para a nova igreja: seguindo pela estrada, ou rio acima, em um local plano, uma várzea do Rio dos Meninos localizada em um vale, protegido dos ventos e das tempestades. Que local era esse? A Praça da Matriz oras!

Definido o local para a construção do novo templo (por volta de 1811), resolve-se construir uma pequena capela, para atender os fiéis e receber as missas enquanto a nova igreja não ficava pronta. Essa capela, foi inaugurada em 1812, bem ás margens da estrada de Santos, protegendo os viajantes. (por isso, Nossa Senhora da “Boa Viagem” olha pelos São-Bernardenses, é a nossa padroeira)

A Capela existe até hoje, na Praça da Matriz, bem em frente a atual Marechal Deodoro.

Ainda em 1812, é elaborado o traçado de algumas ruas em torno da atual Praça da Matriz, que dão origem ás primeiras ruas do centro de São Bernardo. Ruas como Rio Branco, Padre Lustoza, João Pessoa e São Bernardo, são traçadas e executadas nessa época.

Em 1814, inaugura-se a nova, e bela igreja de Nossa Senhora da Conceição da Boa Viagem, um templo grandioso para o vilarejo que a abrigava. Em torno da igreja, cresce São Bernardo, agora, freguesia de São Paulo, desde 1812, por ordem do Marquês de Alegrete, desmembrada da Fazenda de São Bernardo.

No Início do Século XX, a rua recebe alterações importantes. A Energia elétrica chega a São Bernardo em 1907, e a rua recebe iluminação e calçamento em seu trecho central, mais ou menos entre pouco depois da atual Avenida Prestes Maia, até a Rua Doutor Fláquer, e no entorno do Largo da Matriz.

No entanto, o local ainda era extremamente pacato, e estava sendo sufocado aos poucos pelo progresso que a ferrovia trouxe ao Bairro da Estação, atual Santo André. Mas em 1922, o então presidente da Província (Governador do Estado) Washington Luiz, com seu lema “governar é abrir estradas”, ordena a reconstrução da Estrada da Maioridade (Estrada Velha de Santos) em seu trecho de serra, a rodovia é pavimentada com concreto, e o pavimento original está ali na serra até os dias atuais. Era a primeira rodovia pavimentada da América do Sul.

A Reconstrução da Estrada, tira São Bernardo de um longo período de “sono profundo”. Os Automóveis, que proliferavam na Capital Paulista, passam a atravessar a cidade todos os finais de semana, levando veranistas e viajantes a Santos. Era comum a parada em São Bernardo para a refeição, o almoço ou jantar, ou um pernoite nas estalagens e restaurantes estabelecidos ao longo da Marechal Deodoro. São Bernardo ganha vida, e visitas ilustres, como a dos Modernistas de 1922, que costumavam passar pela cidade para fazer refeições, ou apenas para apreciar o luar no Pouso Paranapiacaba (casa de pedra) no Alto da Serra.

A Parada mais apreciada pelos viajantes era o “Magnólia”, localizado onde hoje está instalado o supermercado Wal Mart, no final da Rua Marechal Deodoro.

Descrições sobre as paradas em São Bernardo também podem ser encontradas na obra de Zélia Gattai, esposa do eterno Jorge Amado. Seu pai, foi o primeiro automobilista a realizar uma viagem entre Santos e São Paulo a bordo deste tipo de veículo. Zélia também tinha parentes em São Caetano.

Por volta de 1930, já existia todo um comércio formado a disposição dos viajantes que cruzavam a cidade, no entanto, em 1947, durante a administração de Tereza Delta, é inaugurado todo o trecho de Planalto da Via Anchieta e a primeira pista de descida, que na época era feita em mão dupla. A segunda pista só seria inaugurada em 1953. Partindo do Ipiranga, a Via Anchieta corta o velho caminho em diversos pontos, oferecendo uma viagem muito mais rápida e tranqüila.

O Trecho do caminho que passava no meio de São Bernardo, fica reservado ao trânsito local, e o comércio voltado aos viajantes sofre. Depois de 1947, a já Rua Marechal Deodoro, passa a receber apenas o tráfego local da pequena cidade.

No fim dos anos 50, as margens da Via Anchieta começam a receber um sem número de indústrias, que buscam a localização estratégica entre o Porto de Santos e a Capital Paulista, e daí pra frente, São Bernardo não para mais de crescer.

O Patrimônio que caracterizava a principal rua da cidade, vai caindo durante os anos 50 e 60 principalmente, e a rua começa a se tornar o que é hoje. Sai o paralelepípedo, entra o asfalto, sai a tranqüilidade, e entra o ritmo frenético do comércio. Saem os cumprimentos aos conhecidos do dia a dia, e entra a feição sisuda. A Cidade crescia, e a sua memória morria.

segunda-feira, 20 de julho de 2009

1553?

*Foto: Estação de São Bernardo (atual Santo André) em fins do Século XIX - Por Militão de Azevedo. Você vê algum núcleo urbano em torno da pequena estação? Nem eu!


Quando vejo Santo André comemorando seu aniversário no dia 8 de Abril, considerando que foi a própria vila fundada por João Ramalho, uma certa indignação toma conta do meu espírito, pois quem conhece minimamente a História de nossa região, sabe que isso é “conversa pra boi dormir”, e o pior: Essa História é “martelada” na cuca dos habitantes da cidade vizinha como se fosse a mais absoluta das verdades.

Para contar a História com todos os seus detalhes, devemos voltar a 1532, ano em que a esquadra de Martim Afonso de Souza aporta na atual Cidade de São Vicente, que seria fundada por este, no dia 22 de Janeiro. Martim recebeu uma das capitanias hereditárias que objetivavam a colonização do território, e veio com a sua comitiva conhecer a Capitania de São Vicente.

Ao chegar, a comitiva teria sido abordada em terra por vários índios da nação dos Guaianazes, que estavam dispostos a guerrear com os Portugueses, mas que foram contidos por um homem branco, de barba vasta, e que saiu do meio dos indígenas para a completa surpresa dos lusos. Era João Ramalho, personagem cercado de mistério, que já vivia entre essa nação há anos, e que teria chegado ao nosso país como degredado, ou seja, como criminoso, atirado em nossa costa por alguma embarcação portuguesa. Aqui, João Ramalho cumpria o seu exílio. Esta é a teoria mais defendida pelos estudiosos sobre a chegada do grande personagem da História Paulista em nossas terras.

Depois de acalmar os índios, e de selar a paz entre os lusos e os nativos da terra, João Ramalho apresenta-se aos seus patrícios, e fala a Martim Afonso sobre o reduto em que vivia, no cume da Serra do Mar. Este reduto, segundo alguns, existia desde 1549, e foi oficializado como “Vila” em 1553, mais precisamente no dia 8 de Abril, dia de Santo André, recebendo então o nome de Santo André da Borda do Campo. João Ramalho foi nomeado “alcaide” da vila, um cargo mais ou menos equivalente ao de prefeito.

“Borda do Campo” era o nome que recebia a região que estava ás margens dos Campos de Piratininga, e logo após as matas da Serra do Mar para quem vinha de São Vicente, passando por Piassaguera (atual Cubatão), uma grande área que corresponde mais ou menos ao atual território das sete cidades do Grande ABC Paulista.

Dentro da Vila oficializada por João Ramalho, existia o seu núcleo central, e o colégio dos Jesuítas, fundado oficialmente em 1554, mais precisamente no dia 25 de Janeiro, dia de São Paulo. Na prática, a atual Capital do Estado, era um “bairro” ou “arrebalde” da Vila de Santo André da Borda do Campo.

Em 1560, o governo-geral do Brasil ordena o abandono da Vila de Santo André, alegando que a localidade era muito vulnerável ao ataque de índios inimigos dos portugueses e da nação dos Guaianazes. Entre os inimigos, destacavam-se os índios Carijós, que eram aliados dos franceses que ocupavam a Baía da Guanabara, e que arrasaram a vila em algumas oportunidades, atacando até mesmo o Colégio dos Jesuítas, que por sua localização (no topo de uma elevação, onde hoje está o pátio do colégio, na capital) acabou resistindo ás diversas investidas dos inimigos. Segundo a ordem do governo geral, o “pelourinho”, que era o símbolo que mostrava a quem fosse que a localidade que o recebesse era uma vila oficial (era uma coluna de pedra) deveria ser transferido para o Colégio dos Jesuítas, em São Paulo.

A Outra hipótese para a transferência, teria sido a própria pressão dos Jesuítas, que consideravam Santo André um “antro de perdição”, um local onde os homens viviam em pecado com as índias, uma verdadeira “aldeia de pagãos”. Essas acusações provocaram muitos conflitos entre os clérigos e João Ramalho, que chegou a ameaçar o Padre Manuel da Nóbrega de morte após ser excomungado pelo mesmo.

A Verdade é que João Ramalho nunca aceitou bem a extinção da Vila em que vivia, mas acatou a ordem, e chegou até mesmo a receber um cargo de vereador em São Paulo. Ramalho nunca teria aceito o cargo, e retirou-se para a região do Vale do Paraíba algum tempo depois, onde acabou falecendo por volta de 1580.

A Vila de Santo André da Borda do Campo, desapareceu sem deixar vestígios que indicassem o local exato de sua instalação. A Região como um todo, caiu no abandono, e depois de um tempo foi convertida em uma grande sesmaria (trocando em miúdos: Uma grande fazenda) que doada ao Mosteiro de São Bento, originou duas outras fazendas: São Bernardo e São Caetano, que deram origem aos municípios homônimos.

Mas e a atual Santo André? A Atual Santo André, era um local remoto que abrigava apenas algumas chácaras, fazendas e caminhos de passagem antes de 1867. O Local fazia parte da Freguesia de São Bernardo, instalada em 1812 pelo Marques de Alegrete, e que se subordinava a Cidade de São Paulo. São Bernardo neste período era na prática um bairro da Capital, ou um Distrito isolado, e a atual Santo André, era parte deste – um mero matagal.

Em 1867, a São Paulo Railway inaugura a sua linha férrea entre Jundiaí e Santos. Era a primeira ferrovia construída na Província de São Paulo, e era a concretização de um antigo sonho dos Paulistas: A Transposição da Serra do Mar através de um meio de transporte rápido, seguro e confiável. No Km 53 da linha, é inaugurada a Estação de São Bernardo, pois o local mais próximo dali, era a Vila ou Freguesia de São Bernardo, atual Centro de São Bernardo do Campo.

A Partir da inauguração dessa estação, o lugar, antes deserto, começa a alcançar certa prosperidade por conta da proximidade dos trilhos, que trouxeram o progresso para a região, e cria-se então um novo núcleo dentro de São Bernardo, conhecido como “Bairro da Estação” ou “São Bernardo Estação”.

Em 1890, um decreto republicano cria o Município de São Bernardo, englobando São Caetano (sede da antiga fazenda do Mosteiro de São Bento, e que desde 1877 abrigava um núcleo de imigrantes criado pelo Império, assim como São Bernardo), Pilar Novo, Pilar Velho (Mauá e Ribeirão Pires), Rio Grande (Rio Grande da Serra) e Alto da Serra (Paranapiacaba) além de parte do antigo Município de Santo Amaro e da totalidade do atual Município de Diadema, emancipado apenas na década de 1950.

No início do Século XX, enquanto o Bairro da Estação já abrigava algumas indústrias, e um crescente comércio, a Vila de São Bernardo, núcleo do município, era um lugarejo ermo e rural, graças a decadência do velho Caminho do Mar, sumariamente aposentado após a inauguração da ferrovia entre Santos e Jundiaí. No velho caminho, apenas alguns tropeiros ainda se aventuravam nas perigosas descidas e subidas entre Santos, São Bernardo e São Paulo.

No Bairro da Estação, por volta de 1910, os moradores iniciam um movimento junto a Prefeitura de São Bernardo no sentido de dar uma nova denominação ao que era conhecido apenas por “São Bernardo Estação” ou “Bairro da Estação” ou simplesmente “Estação”, e a escolha destes moradores, recai sobre o nome “Santo André”, nome da pioneira vila fundada por João Ramalho. A Escolha, é aceita, e a partir daí o antigo bairro toma o nome de Santo André e é convertido em Distrito de Paz de São Bernardo.

Os mesmos moradores, sob a égide dos Fláquer, família que dominava a política da região, descendentes do Senador Fláquer, um dos republicanos de Itu, também pressionavam a própria São Paulo Railway, no sentido de alterar o nome da estação para Santo André, pedido que só seria deferido em 1934.

Entre 1910 e 1937, a Vila de São Bernardo, centro do antigo município, perde a sede da prefeitura para a nascente Santo André, mas continua sediando a câmara de vereadores, apesar de gozar de cada vez menos prestígio devido a perda de importância que teve para a nova localidade instalada ás margens dos trilhos. Finalmente, em 1938, o Governador Adhemar de Barros rebaixa São Bernardo da categoria de município, transfere a câmara para o antigo Bairro da Estação, e o então imenso Município de São Bernardo passa a se chamar “Santo André”.

Obviamente, os moradores da vila que sediou o município desde 1890, e que tem origens no século XVIII, revoltam-se contra a medida, e iniciam um movimento objetivando a retomada da autonomia que São Bernardo perdeu. O Movimento, liderado por Wallace Cochrane Simonsen consegue êxito em 30 de Novembro de 1944, quando o interventor Fernando Costa autoriza a criação do Município de São Bernardo do Campo (o “do Campo” homenageia a Borda do Campo. Como já existia um município no Maranhão com o nome São Bernardo, adota-se aqui o “do Campo” para diferenciar a “velha-nova” cidade Paulista da cidade Maranhense – determinação do Conselho Nacional de Geografia). Desta forma, passam a existir duas cidades distintas e autônomas: São Bernardo do Campo, englobando a atual Diadema, e Santo André, englobando as atuais São Caetano, Ribeirão Pires, Mauá e Rio Grande da Serra.

Se você acompanhou o texto até aqui, você merece um desfecho objetivo: Santo André, nasceu em 1910, com a criação do Distrito de Santo André, vinculado ao Município de São Bernardo, ou então, nasceu como cidade apenas em 1938, com o rebaixamento de São Bernardo à condição de vila. Se quisermos buscar uma origem ainda mais antiga, mas não muito correta, Santo André poderia ter nascido em 1867, com a inauguração da Estação da São Paulo Railway.

Já São Bernardo, nasceu em 1812, com o estabelecimento da igreja de Nossa Senhora da Boa Viagem. Se formos buscar uma origem mais antiga para São Bernardo, e não totalmente incorreta, chegaremos a 1717. Ano de criação da Fazenda de São Bernardo, do Mosteiro de São Bento.

Embora as duas cidades remontem suas origens a Santo André da Borda do Campo de João Ramalho, a verdade é que esta vila, extinta em 1560 se perdeu no tempo sem deixar traços. Sobre a sua localização, só existem hipóteses. Talvez a mais forte seja a de que a vila se localizava ás margens do Ribeirão dos Meninos, onde hoje está o Carrefour Vergueiro, e onde depois ergueu-se a sede da Fazenda de São Bernardo.

Pra finalizar: São Bernardo é a mais antiga cidade do atual Grande ABC, e a atual Santo André, nasceu por conta da ferrovia, e não por conta de João Ramalho. E Fim de papo!

domingo, 19 de julho de 2009

Linha de Montagem - As Greves de 1979/1980

Até a década de 70 do Século XX, São Bernardo do Campo tinha estado em evidência em poucos momentos.

O Primeiro, devia-se a sua própria fundação, em 1553, por João Ramalho, um dos mais importantes personagens da História Paulista. Mas esta “fama” reservava-se aos historiadores e estudiosos em geral, que até hoje levantam questões sobre a localização da vila que foi o embrião da maior parte das cidades que atualmente compõem o chamado “Grande ABC”.

O Segundo momento, foi em fins de 1950, início da década de 60, quando São Bernardo do Campo começa a receber os benefícios de ter o seu território devassado pela Via Anchieta, e por sua própria localização geográfica – entre o Porto de Santos e a Capital do Estado. A Cidade recebe a nascente indústria automobilística nacional, ou melhor, multinacional, história que começa com as pioneiras Varam Motores e Brasmotor (depois Brastemp) que se dedicavam a montar “fuscas” importados da Alemanha.


Mas, partidarismos e preferências políticas a parte, o maior momento “de fama” que São Bernardo enfrentou, começou por volta de 1976, quando o Sindicato dos Metalúrgicos inicia um silencioso movimento dentro das inúmeras fábricas da cidade, objetivando melhores salários e condições mais dignas de trabalho. Isso, em plena ditadura militar.


Os movimentos de fábrica originaram greves intensas que preocupavam os mais altos escalões do Governo Federal, que tentava sufocar as “insurreições” como podia: Na base da pata de cavalo e do cacetete. As Grandes Greves do ABC Paulista, que tinham São Bernardo do Campo como epicentro, mobilizaram a classe artística e intelectual do país, que voltou os olhos para a – na época – cidade industrial localizada nos arrebaldes da Capital Paulista. Ali, essa classe via uma oportunidade política dentro do movimento de operários, que ampliaram a sua visão política, antes local, dedicada aos seus companheiros de fábrica, para os destinos do país, que vivia um regime obscuro desde 1964.


Elis Regina, Dominguinhos, Toquinho, Fagner, entre outros artistas de renome, pisavam no subúrbio industrial, e incentivavam a população do país a olhar com carinho por aqueles operários que desafiavam o poder do país com uma paralização em um dos setores que melhor representava o “milagre econômico”: A Indústria Automobilística.


Entre intelectuais, elogios rasgados ao movimento eram lidos todos os dias do jornal, e São Bernardo do Campo passou a ser objeto de estudos de sociólogos, principalmente os que tinham tendências marxistas, que viam aqui na prática o que Marx pregava em suas mais famosas obras: As Organizações sociais de base, o povo mobilizado, etc. Fernando Henrique Cardoso publica uma obra sobre a cidade e sua classe trabalhadora, um misto de álbum de fotos com um estudo sociológico. (Álbum Memórias de São Bernardo – pode ser encontrado na Biblioteca Monteiro Lobato)


Os mais empolgados, diziam que em São Bernardo processava-se um novo Brasil, e que dali por diante São Bernardo deixava-se de espelhar no Brasil, o que aconteceria, seria exatamente o contrário.

Em São Bernardo, um - inicialmente – acanhado torneiro mecânico ganhava nome dentro do Sindicato dos Metalúrgicos – Luiz Inácio “Lula” da Silva, mobilizava multidões de operários, que gritavam o seu nome, e que “compravam” a luta do sindicato. Na época, cerca de 140.000 operários tocavam a indústria da cidade, que comportava então uma das maiores concentrações fabris do mundo.

Lula e seus companheiros de sindicato, trabalharam dentro dos bairros, mobilizavam associações de moradores, e organizavam uma “retaguarda” competente, com capacidade de levar o movimento grevista adiante, mesmo com os “cabeças” do sindicato encarcerados.


Antes dos metalúrgicos de São Bernardo, funcionários eram sumariamente dispensados, o cumprimento das leis trabalhistas era “letra morta”, e o sindicato dos metalúrgicos era um mero posto médico. Depois de Lula, o sindicalismo ganhou as fábricas, os trabalhadores passaram a ter voz, e uma conscientização política repentina tomou as fábricas do país. Foram 41 dias de greve, que se encerraram em 12 de Maio de 1980. Uma das maiores greves da história do país, movimento articulado com a inteligência do povo, e com o apoio de toda uma nação, que via naquele subúrbio industrial uma chama de esperança em direção da democratização do Brasil.


Deste movimento, saíram novos nomes para a política da Cidade, do Estado e do País. Se foram bons ou maus, caberá a História julgar. No entanto, o julgamento que a História promoveu sobre os seus feitos do passado, inegavelmente tem peso positivo para estes personagens, que certamente entraram para a História do Brasil, e que colocaram São Bernardo do Campo na posição de “território iluminista”.





Será que eles imaginavam o desfecho de tudo isso? Duvido.


Para saber mais:


Linha de Montagem – Filme

Renato Tapajós
1982-2007