quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

Os muitos campos de outrora

Quem hoje passa pelo Centro de São Bernardo, não consegue imaginar que ali, em plena Rua Marechal Deodoro e em suas adjacências, existiam vários campos de futebol até os anos 60. Por este motivo, resolvi escrever um texto falando sobre estes campos, encravados em pleno centro da cidade, quando o futebol São-Bernardense (ou sambernardense) gozava de mais prestígio e de mais atenção por parte de seus moradores.

O Primeiro campo, ou melhor, o mais antigo que conhecemos, era utilizado pela antiga Associação Athlética São Bernardo, e ficava em um terreno de propriedade do Sr.Ítalo Setti, um dos mais ilustres cidadãos que São Bernardo do Campo já possuiu. (a vida dele é tema de outro texto). Este campo, ficava no quarteirão delimitado pela Rua Marechal Deodoro e pelas Avenidas Francisco Prestes Maia e Brigadeiro Faria Lima. O Campo foi instalado ali na época da primeira “febre” futebolística de São Bernardo, e a intenção da Associação Athlética, era comprar o terreno do proprietário, que para isso facilitou o preço em parcelas “bem camaradas”. No entanto, em 1922, a AASB faliu junto com o seu maior rival, o Internacional FC. O Campo continuou sendo utilizado de maneira informal, pelo futebol de várzea da cidade, até que em 1928, o recém-fundado Esporte Clube São Bernardo passa a utilizar a área em benefício próprio.

Em 1941, o clube resolve procurar o Sr.Ítalo Setti, visando a aquisição do terreno para a constituição de sua sede própria, instalada até então na Rua Marechal Deodoro, primeiramente na sobreloja do Bar Expresso, tradicional reduto de admiradores do clube, e depois em uma velha sala de cinema desativada. Simpático à idéia do clube, o Sr.Ítalo Setti doa o terreno à agremiação impondo algumas condições: O Estádio deveria chamar-se Ítalo Setti, e caso o clube se dissolvesse, o terreno voltaria para as mãos da família. Desta forma, o “Esporte” (nome carinhosamente dado ao São Bernardo) constrói ali toda a estrutura de um clube social: Estádio com arquibancadas, iluminação noturna (o S.Paulo FC veio inaugurar em partida amistosa contra o ECSB), quadras de basquete, vôlei, futsal, vestiários e demais itens. O Estádio Ítalo Setti, o mais moderno do ABC durou até os anos 60, quando a Avenida Brigadeiro Faria Lima foi construída e rasgou todo o campo, reduzindo a propriedade do clube, que sem local para jogar acabou se desligando do futebol, voltando somente no início dos anos 80. Em 1968, o clube inaugura no terreno o primeiro ginásio de São Bernardo do Campo, além de piscinas, sauna e estruturas modernas que permitiram que o Esporte se tornasse o maior clube da cidade na época. O Ginásio também beneficiou muito o basquete do clube, que sempre colecionou títulos e revelou “cracaços”.

O Terreno pertence ao clube até hoje.

O Outro campo que merece destaque, é o velho campo do Palestra. Até 1952, existia na atual Praça Lauro Gomes, um velho casarão, construído em taipa no Século XVIII, e que pertencia ao Alferes Bonilha, antigo habitante do lugar. Este casarão, de fachada simples e sóbria, teve papel fundamental para a cidade, pois sediou o núcleo colonial de São Bernardo á partir de 1877, além de ter funcionado como cadeia, grupo escolar, posto dos correios, delegacia de polícia, entre outros usos. Atrás dele, mais ou menos onde hoje está a Escola Estadual Iracema Munhoz, existia o Pasto da Prefeitura, que também servia de ponto de retorno para o bondinho que ligava S.Bernardo à Santo André. Após a fundação do Palestra de São Bernardo, em 1 de Setembro de 1935, os responsáveis pela agremiação alviverde procuraram em Santo André o prefeito Saladino Cardoso Franco, que cedeu a área aos Palestristas, que ali construíram dois campos com uma pequena arquibancada. Era a casa do Palestra, envolta por uma pequena cerca pintada de verde e branco, e que tinha o velho casarão com suas janelas da parte traseira voltadas para o acanhado estádio, construído com muito esforço pelos seus simpatizantes.

O Campo foi desmontado juntamente com o velho casarão. Ali nasceu a segunda praça da cidade, e a atual EE Iracema Munhoz, ambos inaugurados pelo Prefeito Lauro Gomes no IV Centenário de São Bernardo, em 1953. Com o casarão, uma grande e importante parte da memória de São Bernardo ficou esquecida, foi sepultada naquele entulho de quase dois séculos, tudo dizimado em nome do “progresso” que chegava à outrora pequena e tranqüila cidade. Sinais de novos tempos, de indústrias e da nova Via Anchieta que rasgava o território do município.

O Palestra, graças a uma atitude cordial de seu rival, mandou seus jogos no Estádio Ítalo Setti até conseguir construir um novo campo, em um terreno cedido pela prefeitura na então “Vila” Ferrazópolis, um deserto urbano que na época nem tinha o “status” de bairro, pois estava vinculado ao centro da cidade.

Lauro Gomes, com essa atitude, se tornou “persona-non-grata” entre os Palestristas, que já tinham Tereza Delta, a grande rival de Lauro Gomes como madrinha do time e do clube.

O Último campo, estava no quarteirão delimitado pelas ruas Frei Gaspar, Alferes Bonilha e pela Avenida Brigadeiro Faria Lima. Era o campo do Brasil, uma das maiores equipes de várzea de São Bernardo, destino certo de muitos jogadores que se “aposentavam” pelo Palestra e pelo Esporte. Ali, apenas um campo, sem arquibancadas era o que bastava para a realização das partidas, sempre muito disputadas, pois o cenário varzeano de São Bernardo do Campo sempre foi da melor qualidade. O Campo, foi cortado pela Avenida Brigadeiro Faria Lima, mas já tinha sido abandonado pouco antes. Em seu lugar está a Praça Brasil, homenagem ao clube que construiu ali um pedaço da história de nosso rico e esquecido futebol.

Sem campos, o futebol da cidade foi acabando, até a inauguração do estádio Humberto de Alencar Castelo Branco, o popular Baetão, pelo prefeito Geraldo Faria Rodrigues, no início dos anos 70. O Baetão, estádio esquisito e acanhado, apoiado de um lado em um grande barranco, com as suas arquibancadas em declive, e do outro com uns míseros quatro ou cinco degraus, enchia e vibrava com as partidas do Aliança Clube de Rudge Ramos, um aventureiro do futebol profissional, que em fins dos anos 70 era a mais poderosa equipe amadora do Estado de São Paulo, campeã invicta do “Desafio ao Galo”, tradicional torneio varzeano, vencedora do “Super Galo”, que reunia todas as equipes campeãs do torneio, e que depois resolveu se profissionalizar, sendo vice-campeã da segunda divisão do Campeonato Paulista em duas oportunidades. Depois, foi absorvida pelo Esporte Clube São Bernardo, que continuou repetindo os feitos da equipe azul.

Ainda nos anos 70, foi inaugurado o Estádio Costa e Silva, mais moderno e amplo, antiga aspiração dos esportistas da cidade. O Terreno pertencia a Tecelagem Elni, uma das mais modernas do Brasil, que estava instalada onde hoje está o Poupatempo. No Estádio, o Palestra enfrentou nada mais nada menos do que o Santos de Pelé, na única apresentação oficial que a equipe fez em S.Bernardo do Campo, antigo e tradicional ponto de concentração do time santista. No entanto, o estádio ficou famoso por sediar as reuniões de metalúrgicos durante as grandes greves do ABC, em fins dos anos 70 e no início dos anos 80. Na década de 80, o estádio foi ampliado, e teve o seu nome alterado para “Estádio Primeiro de Maio” em homenagem aos eventos grevistas. O Estádio permanece inacabado e sem iluminação artificial até os dias de hoje.

E em uma cidade que já teve tantos campos de futebol, hoje temos apenas dois estádios incompletos e acanhados, que não combinam com a grandeza de São Bernardo do Campo, e tampouco com a bela história do futebol de nossa cidade.

4 comentários:

São Jorge disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
São Jorge disse...

Puxa, nasci e morei até os quatorze anos em São Bernardo. Joguei no infantil do Palestra por dois anos. Gostava demais do clube, apesar de ser alviverde, e já fui em um jogo do São Bernardo contra o Taubaté, em meados dos anos 80. Tenho muita saudade daquela época. Morava na Vila Ferrazópolis, estudava no Collaço. Ótima época.

SIENITO disse...

Eu entendo como essencial tudo aquilo que nos agrega alguma coisa, ou nos lança um olhar mais vivo e menos superficial sobre as coisas próximas, nas quais achamos irrelevantes....

Enfim, seu blog é evidentemente necessário, indispensável, interessante e até peculiar... Não deixarei de ler.

Obrigada por me seguir, não tenho muitas palavras na bagagem, e não escrevo tão vivamente como você, mas escrevo e tô por aí...

De uma sambernardense mais orgulhosa, Karen.

Fabiano Setti disse...

Parabens pela homenagem ao meu bisavo, grande e ilustre cidadao de Sao Bernardo. Em nome da familia Setti, muito obrigado pela lembranca.

Fabiano Setti