quarta-feira, 19 de agosto de 2009

Cinco Encruzilhadas


Foto: Capela de Bom Jesus de Piraporinha, ou da Pedra Fria, criminosamente demolida nos anos 60 - Foto dos anos 30.

Alguém aí já ouviu falar das “Cinco Encruzilhadas”? Este, é mais um dos inúmeros nomes que se perderam com a evolução da cidade de São Bernardo do Campo, e com a criação de loteamentos por empresas imobiliárias, principalmente ao longo dos anos 50.

Em fins do Século XVIII, época das bandeiras de exploração, os Bandeirantes criam na rota entre São Bernardo e Santo Amaro, um pouso chamado de “Piraporinha”. Este nome, já é bem conhecido de todos nós, São-Bernardenses, e principalmente dos Diademenses. Alguém pode perguntar: Mas Piraporinha não fica em Diadema? Hoje sim, mas antigamente não.

Piraporinha estava em uma imensa gleba de terras que pertencia à Família Pedroso, uma das mais antigas da região, de origem portuguesa, e que estava estabelecida na região desde 1769, como alguns documentos indicam. As Terras da Família Pedroso, iam desde o atual Largo de Piraporinha até onde hoje está a Vila São José, em Diadema.

Com o desenvolvimento populacional da região, José Pedroso de Oliveira, com o auxílio da população do lugarejo, ergue a Capela de Bom Jesus da Pedra Fria, para o local, afluíam romeiros de diversas partes em épocas de festa e nos dias santos, o que levou a uma expansão do lugarejo, e a um aumento das dependências da modesta capela.

Em 1881, o mesmo Pedroso, doou as terras do entorno da capela à Cúria Metropolitana de São Paulo, o que na prática levou o lugar a uma emancipação de Piraporinha, pois se antes as terras eram particulares, agora elas eram abertas à todos que afluíam para o vilarejo. Em 1887, cria-se o núcleo de imigração de São Bernardo. Rasgam-se as “linhas coloniais”, que eram na prática estradas que serviam de base para a demarcação dos lotes rurais dos imigrantes, em sua maioria, Italianos. Desta forma, o largo onde estava a capela, transforma-se em um entroncamento, de cinco caminhos, e daí aparece o nome “Cinco Encruzilhadas”. Um destes caminhos, era justamente a Linha Jurubatuba, linha colonial, hoje representada pela Avenida Jurubatuba em Diadema, e pela Avenida Humberto de Alencar Castelo Branco, em São Bernardo.

O Entroncamento destes caminhos ao redor da capela, transforma Piraporinha em um lugarejo procurado pelo comércio estabelecido, comércio modesto, baseado em armazéns que forneciam gêneros de primeira necessidade aos imigrantes e demais habitantes, que sofriam com a precariedade dos caminhos que levavam ao núcleo central de São Bernardo, atual Centro.

Nos anos 40, com a criação do Distrito de Diadema, dentro do Município de São Bernardo do Campo (que teve a sua autonomia restaurada em 1944), a Vila Piraporinha, que era e é um dos mais antigos bairros de São Bernardo, passa a integrar o novo distrito.

Já nos anos 50, Piraporinha passa a concentrar indústrias, iniciando a segunda principal vocação do lugar, a primeira, era o comércio, que ainda nos anos 50 fazia do lugar o principal entreposto comercial do Distrito de Diadema, e um dos mais importantes do Município de São Bernardo do Campo.

Também nos anos 50, um grupo de habitantes de Vila Conceição, atual centro de Diadema, inicia um movimento liderado por Evandro Caiaffa Esquivel, e que contava com o apoio de Miguel Reale, advogado que fazia parte da comissão que tratava das emancipações no Estado de São Paulo, com o objetivo de desmembrar Diadema do Município de São Bernardo do Campo. A Justificativa era o descaso de São Bernardo para com o seu distrito. Em São Bernardo, o movimento encontrava forte oposição, e em Diadema também, pois muitos de seus habitantes acreditavam que o novo município só perderia, pois São Bernardo do Campo estava em franca expansão graças à abertura da Via Anchieta e a instalação de diversas indústrias, o que segundo estes moradores acabaria beneficiando o distrito.

Em uma eleição apertada, Diadema torna-se Município em 1959, e São Bernardo perde Piraporinha, um de seus bairros mais antigos, e uma de suas “células-mater”.

Em 29 de Julho de 1968, em um verdadeiro crime contra o patrimônio histórico do ABC, cai a histórica capela de Bom Jesus da Pedra Fria, em seu lugar, ergue-se uma grande, mas feiosa igreja, cercada pelo movimento frenético do atual Largo Bom Jesus de Piraporinha.

Portanto, injustamente, Diadema abriga hoje um dos mais antigos bairros de São Bernardo. Coisas da política.

5 comentários:

Thaís disse...

Contanto que Diadema tivesse cuidado da capela original, não veria problema que eles tivessem 'arrebatado' Piraporinha. Triste para os São bernardenses antigos, que provavelmente sentiram a perda da própria história de vida deles - ao perder Piraporinha, e ao vê-la desmanchando.
Mas tudo é o grande ABC, podemos olhar para a Piraporinha quando quisermos (ainda que não bem cuidada). E se não houvessem mudanças bruscas assim...haveria bem menos histórias!

Anônimo disse...

Concordo com a sua posição de que perdemos uma capela histórica do grande ABC como temos perdido tantos outros lugares históricos. Porém, não é verdade que no lugar na antiga capela surgiu uma igreja grande e "feiosa". Não! Não compartilho dessa visão e creio que muitos outros também não. A nova igreja é grande e bela. Uma estrutura moderna a arrojada, fincada no coração de PIRAPORINHA. Vibrante e pulsante como a vida e o coração de todos os que fazem a igreja ser viva.

Leandro disse...

Bonita ou feia é um crime do mesmo jeito! Não se pode derrubar um marco histórico como era. São Bernardo destruiu sem dó nem piedade seu patrimônio e está pagando um preço caro por isso, a cidade não tem nenhum laço de memória.

José Roberto de Souza disse...

Morei no Bairro de Piraporinha de 1953 até 1957. Assistia as gravações de filmes da Veracruz. Um deles foi " O Sobrado " que saudades. Outro foi " Osso amor e papagaio". Frequentei aula na antiga escolinha de duas salas em frente onde hoje é o " Moinho Fabrini. Foi uma pena terem demolido a historica igrejinha.

José Roberto de Souza disse...

se alguem estudou na antiga escolinha de duas salas na rua Moinho Fabrini de 1953 a 1957 , meu e-mail é joserobertos61@yahoo.com.br