segunda-feira, 20 de julho de 2009

1553?

*Foto: Estação de São Bernardo (atual Santo André) em fins do Século XIX - Por Militão de Azevedo. Você vê algum núcleo urbano em torno da pequena estação? Nem eu!


Quando vejo Santo André comemorando seu aniversário no dia 8 de Abril, considerando que foi a própria vila fundada por João Ramalho, uma certa indignação toma conta do meu espírito, pois quem conhece minimamente a História de nossa região, sabe que isso é “conversa pra boi dormir”, e o pior: Essa História é “martelada” na cuca dos habitantes da cidade vizinha como se fosse a mais absoluta das verdades.

Para contar a História com todos os seus detalhes, devemos voltar a 1532, ano em que a esquadra de Martim Afonso de Souza aporta na atual Cidade de São Vicente, que seria fundada por este, no dia 22 de Janeiro. Martim recebeu uma das capitanias hereditárias que objetivavam a colonização do território, e veio com a sua comitiva conhecer a Capitania de São Vicente.

Ao chegar, a comitiva teria sido abordada em terra por vários índios da nação dos Guaianazes, que estavam dispostos a guerrear com os Portugueses, mas que foram contidos por um homem branco, de barba vasta, e que saiu do meio dos indígenas para a completa surpresa dos lusos. Era João Ramalho, personagem cercado de mistério, que já vivia entre essa nação há anos, e que teria chegado ao nosso país como degredado, ou seja, como criminoso, atirado em nossa costa por alguma embarcação portuguesa. Aqui, João Ramalho cumpria o seu exílio. Esta é a teoria mais defendida pelos estudiosos sobre a chegada do grande personagem da História Paulista em nossas terras.

Depois de acalmar os índios, e de selar a paz entre os lusos e os nativos da terra, João Ramalho apresenta-se aos seus patrícios, e fala a Martim Afonso sobre o reduto em que vivia, no cume da Serra do Mar. Este reduto, segundo alguns, existia desde 1549, e foi oficializado como “Vila” em 1553, mais precisamente no dia 8 de Abril, dia de Santo André, recebendo então o nome de Santo André da Borda do Campo. João Ramalho foi nomeado “alcaide” da vila, um cargo mais ou menos equivalente ao de prefeito.

“Borda do Campo” era o nome que recebia a região que estava ás margens dos Campos de Piratininga, e logo após as matas da Serra do Mar para quem vinha de São Vicente, passando por Piassaguera (atual Cubatão), uma grande área que corresponde mais ou menos ao atual território das sete cidades do Grande ABC Paulista.

Dentro da Vila oficializada por João Ramalho, existia o seu núcleo central, e o colégio dos Jesuítas, fundado oficialmente em 1554, mais precisamente no dia 25 de Janeiro, dia de São Paulo. Na prática, a atual Capital do Estado, era um “bairro” ou “arrebalde” da Vila de Santo André da Borda do Campo.

Em 1560, o governo-geral do Brasil ordena o abandono da Vila de Santo André, alegando que a localidade era muito vulnerável ao ataque de índios inimigos dos portugueses e da nação dos Guaianazes. Entre os inimigos, destacavam-se os índios Carijós, que eram aliados dos franceses que ocupavam a Baía da Guanabara, e que arrasaram a vila em algumas oportunidades, atacando até mesmo o Colégio dos Jesuítas, que por sua localização (no topo de uma elevação, onde hoje está o pátio do colégio, na capital) acabou resistindo ás diversas investidas dos inimigos. Segundo a ordem do governo geral, o “pelourinho”, que era o símbolo que mostrava a quem fosse que a localidade que o recebesse era uma vila oficial (era uma coluna de pedra) deveria ser transferido para o Colégio dos Jesuítas, em São Paulo.

A Outra hipótese para a transferência, teria sido a própria pressão dos Jesuítas, que consideravam Santo André um “antro de perdição”, um local onde os homens viviam em pecado com as índias, uma verdadeira “aldeia de pagãos”. Essas acusações provocaram muitos conflitos entre os clérigos e João Ramalho, que chegou a ameaçar o Padre Manuel da Nóbrega de morte após ser excomungado pelo mesmo.

A Verdade é que João Ramalho nunca aceitou bem a extinção da Vila em que vivia, mas acatou a ordem, e chegou até mesmo a receber um cargo de vereador em São Paulo. Ramalho nunca teria aceito o cargo, e retirou-se para a região do Vale do Paraíba algum tempo depois, onde acabou falecendo por volta de 1580.

A Vila de Santo André da Borda do Campo, desapareceu sem deixar vestígios que indicassem o local exato de sua instalação. A Região como um todo, caiu no abandono, e depois de um tempo foi convertida em uma grande sesmaria (trocando em miúdos: Uma grande fazenda) que doada ao Mosteiro de São Bento, originou duas outras fazendas: São Bernardo e São Caetano, que deram origem aos municípios homônimos.

Mas e a atual Santo André? A Atual Santo André, era um local remoto que abrigava apenas algumas chácaras, fazendas e caminhos de passagem antes de 1867. O Local fazia parte da Freguesia de São Bernardo, instalada em 1812 pelo Marques de Alegrete, e que se subordinava a Cidade de São Paulo. São Bernardo neste período era na prática um bairro da Capital, ou um Distrito isolado, e a atual Santo André, era parte deste – um mero matagal.

Em 1867, a São Paulo Railway inaugura a sua linha férrea entre Jundiaí e Santos. Era a primeira ferrovia construída na Província de São Paulo, e era a concretização de um antigo sonho dos Paulistas: A Transposição da Serra do Mar através de um meio de transporte rápido, seguro e confiável. No Km 53 da linha, é inaugurada a Estação de São Bernardo, pois o local mais próximo dali, era a Vila ou Freguesia de São Bernardo, atual Centro de São Bernardo do Campo.

A Partir da inauguração dessa estação, o lugar, antes deserto, começa a alcançar certa prosperidade por conta da proximidade dos trilhos, que trouxeram o progresso para a região, e cria-se então um novo núcleo dentro de São Bernardo, conhecido como “Bairro da Estação” ou “São Bernardo Estação”.

Em 1890, um decreto republicano cria o Município de São Bernardo, englobando São Caetano (sede da antiga fazenda do Mosteiro de São Bento, e que desde 1877 abrigava um núcleo de imigrantes criado pelo Império, assim como São Bernardo), Pilar Novo, Pilar Velho (Mauá e Ribeirão Pires), Rio Grande (Rio Grande da Serra) e Alto da Serra (Paranapiacaba) além de parte do antigo Município de Santo Amaro e da totalidade do atual Município de Diadema, emancipado apenas na década de 1950.

No início do Século XX, enquanto o Bairro da Estação já abrigava algumas indústrias, e um crescente comércio, a Vila de São Bernardo, núcleo do município, era um lugarejo ermo e rural, graças a decadência do velho Caminho do Mar, sumariamente aposentado após a inauguração da ferrovia entre Santos e Jundiaí. No velho caminho, apenas alguns tropeiros ainda se aventuravam nas perigosas descidas e subidas entre Santos, São Bernardo e São Paulo.

No Bairro da Estação, por volta de 1910, os moradores iniciam um movimento junto a Prefeitura de São Bernardo no sentido de dar uma nova denominação ao que era conhecido apenas por “São Bernardo Estação” ou “Bairro da Estação” ou simplesmente “Estação”, e a escolha destes moradores, recai sobre o nome “Santo André”, nome da pioneira vila fundada por João Ramalho. A Escolha, é aceita, e a partir daí o antigo bairro toma o nome de Santo André e é convertido em Distrito de Paz de São Bernardo.

Os mesmos moradores, sob a égide dos Fláquer, família que dominava a política da região, descendentes do Senador Fláquer, um dos republicanos de Itu, também pressionavam a própria São Paulo Railway, no sentido de alterar o nome da estação para Santo André, pedido que só seria deferido em 1934.

Entre 1910 e 1937, a Vila de São Bernardo, centro do antigo município, perde a sede da prefeitura para a nascente Santo André, mas continua sediando a câmara de vereadores, apesar de gozar de cada vez menos prestígio devido a perda de importância que teve para a nova localidade instalada ás margens dos trilhos. Finalmente, em 1938, o Governador Adhemar de Barros rebaixa São Bernardo da categoria de município, transfere a câmara para o antigo Bairro da Estação, e o então imenso Município de São Bernardo passa a se chamar “Santo André”.

Obviamente, os moradores da vila que sediou o município desde 1890, e que tem origens no século XVIII, revoltam-se contra a medida, e iniciam um movimento objetivando a retomada da autonomia que São Bernardo perdeu. O Movimento, liderado por Wallace Cochrane Simonsen consegue êxito em 30 de Novembro de 1944, quando o interventor Fernando Costa autoriza a criação do Município de São Bernardo do Campo (o “do Campo” homenageia a Borda do Campo. Como já existia um município no Maranhão com o nome São Bernardo, adota-se aqui o “do Campo” para diferenciar a “velha-nova” cidade Paulista da cidade Maranhense – determinação do Conselho Nacional de Geografia). Desta forma, passam a existir duas cidades distintas e autônomas: São Bernardo do Campo, englobando a atual Diadema, e Santo André, englobando as atuais São Caetano, Ribeirão Pires, Mauá e Rio Grande da Serra.

Se você acompanhou o texto até aqui, você merece um desfecho objetivo: Santo André, nasceu em 1910, com a criação do Distrito de Santo André, vinculado ao Município de São Bernardo, ou então, nasceu como cidade apenas em 1938, com o rebaixamento de São Bernardo à condição de vila. Se quisermos buscar uma origem ainda mais antiga, mas não muito correta, Santo André poderia ter nascido em 1867, com a inauguração da Estação da São Paulo Railway.

Já São Bernardo, nasceu em 1812, com o estabelecimento da igreja de Nossa Senhora da Boa Viagem. Se formos buscar uma origem mais antiga para São Bernardo, e não totalmente incorreta, chegaremos a 1717. Ano de criação da Fazenda de São Bernardo, do Mosteiro de São Bento.

Embora as duas cidades remontem suas origens a Santo André da Borda do Campo de João Ramalho, a verdade é que esta vila, extinta em 1560 se perdeu no tempo sem deixar traços. Sobre a sua localização, só existem hipóteses. Talvez a mais forte seja a de que a vila se localizava ás margens do Ribeirão dos Meninos, onde hoje está o Carrefour Vergueiro, e onde depois ergueu-se a sede da Fazenda de São Bernardo.

Pra finalizar: São Bernardo é a mais antiga cidade do atual Grande ABC, e a atual Santo André, nasceu por conta da ferrovia, e não por conta de João Ramalho. E Fim de papo!

2 comentários:

Thais.. disse...

Como São Bernardense morando em Santo André desde o nascimento, posso dizer que amo as duas cidades independente da confusão entre região de terras e autonomia. A História só as torna mais interessantes.
Alguém me explica porque ninguém ensina sobre o João Ramalho nas escolas do ABC?

Leandro disse...

Não sou filho de São Bernardo - sou da querida da terra do Tito Costa, Torrinha/SP - mas adotei essa terra como mãe. Naturalmente a amo muito.
Um texto bem esmiuçado e objetivo sobre a nossa cidade.
Concordo Thais! João Ramalho, apesar da hipótese de ter sido um vilão no passado, deveria ser mais presentes nos livros de história, especialmente nas escolas daqui!
Não me importa em que ano houve a queda da Bastilha, a Independência americana, devíamos saber o passado dos nossos habitates.
Primeiro ato que tomaria se fosse prefeito: Mudar o nome de ruas, avenidas e bairros como Kennedy, Detroit, Las Vegas para João Ramalho, Wallace Simonsen e etc.
Ah e claro! Chora Santo André.... mero matagal de São Bernardo!