domingo, 19 de julho de 2009

Linha de Montagem - As Greves de 1979/1980

Até a década de 70 do Século XX, São Bernardo do Campo tinha estado em evidência em poucos momentos.

O Primeiro, devia-se a sua própria fundação, em 1553, por João Ramalho, um dos mais importantes personagens da História Paulista. Mas esta “fama” reservava-se aos historiadores e estudiosos em geral, que até hoje levantam questões sobre a localização da vila que foi o embrião da maior parte das cidades que atualmente compõem o chamado “Grande ABC”.

O Segundo momento, foi em fins de 1950, início da década de 60, quando São Bernardo do Campo começa a receber os benefícios de ter o seu território devassado pela Via Anchieta, e por sua própria localização geográfica – entre o Porto de Santos e a Capital do Estado. A Cidade recebe a nascente indústria automobilística nacional, ou melhor, multinacional, história que começa com as pioneiras Varam Motores e Brasmotor (depois Brastemp) que se dedicavam a montar “fuscas” importados da Alemanha.


Mas, partidarismos e preferências políticas a parte, o maior momento “de fama” que São Bernardo enfrentou, começou por volta de 1976, quando o Sindicato dos Metalúrgicos inicia um silencioso movimento dentro das inúmeras fábricas da cidade, objetivando melhores salários e condições mais dignas de trabalho. Isso, em plena ditadura militar.


Os movimentos de fábrica originaram greves intensas que preocupavam os mais altos escalões do Governo Federal, que tentava sufocar as “insurreições” como podia: Na base da pata de cavalo e do cacetete. As Grandes Greves do ABC Paulista, que tinham São Bernardo do Campo como epicentro, mobilizaram a classe artística e intelectual do país, que voltou os olhos para a – na época – cidade industrial localizada nos arrebaldes da Capital Paulista. Ali, essa classe via uma oportunidade política dentro do movimento de operários, que ampliaram a sua visão política, antes local, dedicada aos seus companheiros de fábrica, para os destinos do país, que vivia um regime obscuro desde 1964.


Elis Regina, Dominguinhos, Toquinho, Fagner, entre outros artistas de renome, pisavam no subúrbio industrial, e incentivavam a população do país a olhar com carinho por aqueles operários que desafiavam o poder do país com uma paralização em um dos setores que melhor representava o “milagre econômico”: A Indústria Automobilística.


Entre intelectuais, elogios rasgados ao movimento eram lidos todos os dias do jornal, e São Bernardo do Campo passou a ser objeto de estudos de sociólogos, principalmente os que tinham tendências marxistas, que viam aqui na prática o que Marx pregava em suas mais famosas obras: As Organizações sociais de base, o povo mobilizado, etc. Fernando Henrique Cardoso publica uma obra sobre a cidade e sua classe trabalhadora, um misto de álbum de fotos com um estudo sociológico. (Álbum Memórias de São Bernardo – pode ser encontrado na Biblioteca Monteiro Lobato)


Os mais empolgados, diziam que em São Bernardo processava-se um novo Brasil, e que dali por diante São Bernardo deixava-se de espelhar no Brasil, o que aconteceria, seria exatamente o contrário.

Em São Bernardo, um - inicialmente – acanhado torneiro mecânico ganhava nome dentro do Sindicato dos Metalúrgicos – Luiz Inácio “Lula” da Silva, mobilizava multidões de operários, que gritavam o seu nome, e que “compravam” a luta do sindicato. Na época, cerca de 140.000 operários tocavam a indústria da cidade, que comportava então uma das maiores concentrações fabris do mundo.

Lula e seus companheiros de sindicato, trabalharam dentro dos bairros, mobilizavam associações de moradores, e organizavam uma “retaguarda” competente, com capacidade de levar o movimento grevista adiante, mesmo com os “cabeças” do sindicato encarcerados.


Antes dos metalúrgicos de São Bernardo, funcionários eram sumariamente dispensados, o cumprimento das leis trabalhistas era “letra morta”, e o sindicato dos metalúrgicos era um mero posto médico. Depois de Lula, o sindicalismo ganhou as fábricas, os trabalhadores passaram a ter voz, e uma conscientização política repentina tomou as fábricas do país. Foram 41 dias de greve, que se encerraram em 12 de Maio de 1980. Uma das maiores greves da história do país, movimento articulado com a inteligência do povo, e com o apoio de toda uma nação, que via naquele subúrbio industrial uma chama de esperança em direção da democratização do Brasil.


Deste movimento, saíram novos nomes para a política da Cidade, do Estado e do País. Se foram bons ou maus, caberá a História julgar. No entanto, o julgamento que a História promoveu sobre os seus feitos do passado, inegavelmente tem peso positivo para estes personagens, que certamente entraram para a História do Brasil, e que colocaram São Bernardo do Campo na posição de “território iluminista”.





Será que eles imaginavam o desfecho de tudo isso? Duvido.


Para saber mais:


Linha de Montagem – Filme

Renato Tapajós
1982-2007

Um comentário:

mozart disse...

muito bom... na parte cultural vou tentar fazer de tudo para lhe mandar algo alem do que tem em livros da memória musical de SBC, bandas em desfile, as melhores, as piores mas com cabeça erguida e a prefeitura não conseguiu destruir, troféis, medalhas... coisas que você pode não ter acesso!