terça-feira, 21 de julho de 2009

Todos os caminhos levam à Marechal


*Foto: Rua Marechal Deodoro, em 1895 - Autor desconhecido. Parecida com a de hoje?

Caos, degradação urbana, gente em excesso, comércio e mais comércio. Quem passa pela Rua Marechal Deodoro, no coração de São Bernardo do Campo nos dias de hoje, certamente faz isso por obrigação, e não por prazer ou lazer. A rua se transformou em um verdadeiro inferno, e se tornou o coração do centro da cidade, “onde se encontra de tudo” em São Bernardo.


Mas, você pode imaginar como era a Rua Marechal Deodoro... Vejamos... Em 1890? Provavelmente não...

Em 1890, ano em que São Bernardo foi transformada em município por um decreto da nascente república, graças a influência da Família Fláquer, a Rua Marechal Deodoro era uma estrada de terra, com lampiões a azeite pendurados nas proximidades do Largo da Matriz (Praça da Matriz) onde se localizava o parco comércio existente nessa São Bernardo de outrora. Algumas carroças quebravam a monotonia interminável do lugarejo, que na época era uma típica cidade de interior, e ainda por cima, distante de São Paulo. As duas cidades eram separadas por muito mato e por muitas chácaras.

A Atual Rua Marechal Deodoro, era a antiga Estrada de Santos, ou “Caminho Geral de Santos”, que começava na Praça da Sé em São Paulo, e terminava ás margens do Porto de Santos. Por muitos anos, mais precisamente até 1947, para se ir até a baixada santista, passava-se obrigatoriamente em São Bernardo, o que fez florescer na cidade um certo comércio voltado a estes viajantes, principalmente depois das melhorias realizadas no trecho de serra da hoje conhecida como Estrada Velha de Santos.

O Primeiro núcleo populacional de nossa cidade, estava localizado em outro ponto de nosso território no Século XVIII. São Bernardo era uma vila que se formou dentro da Fazenda de São Bernardo, do Mosteiro de São Bento, e essa vila estava localizada na confluência das Avenidas Senador Vergueiro e Kennedy, ás margens do Ribeirão dos Meninos e também da Estrada de Santos. (sim, a Av.Senador Vergueiro também fazia parte do traçado da estrada velha de Santos, mas isso é assunto para outro texto)

Dentro dessa vila, a devoção a Nossa Senhora da Conceição cresceu, graças aos viajantes que pediam proteção a santa no perigoso trajeto entre o Planalto e o Litoral, os moradores tinham vontade de erguer uma capela em louvor a santa, mas não poderiam fazer isso dentro da fazenda do mosteiro. Desta forma, um novo local foi providenciado para a nova igreja: seguindo pela estrada, ou rio acima, em um local plano, uma várzea do Rio dos Meninos localizada em um vale, protegido dos ventos e das tempestades. Que local era esse? A Praça da Matriz oras!

Definido o local para a construção do novo templo (por volta de 1811), resolve-se construir uma pequena capela, para atender os fiéis e receber as missas enquanto a nova igreja não ficava pronta. Essa capela, foi inaugurada em 1812, bem ás margens da estrada de Santos, protegendo os viajantes. (por isso, Nossa Senhora da “Boa Viagem” olha pelos São-Bernardenses, é a nossa padroeira)

A Capela existe até hoje, na Praça da Matriz, bem em frente a atual Marechal Deodoro.

Ainda em 1812, é elaborado o traçado de algumas ruas em torno da atual Praça da Matriz, que dão origem ás primeiras ruas do centro de São Bernardo. Ruas como Rio Branco, Padre Lustoza, João Pessoa e São Bernardo, são traçadas e executadas nessa época.

Em 1814, inaugura-se a nova, e bela igreja de Nossa Senhora da Conceição da Boa Viagem, um templo grandioso para o vilarejo que a abrigava. Em torno da igreja, cresce São Bernardo, agora, freguesia de São Paulo, desde 1812, por ordem do Marquês de Alegrete, desmembrada da Fazenda de São Bernardo.

No Início do Século XX, a rua recebe alterações importantes. A Energia elétrica chega a São Bernardo em 1907, e a rua recebe iluminação e calçamento em seu trecho central, mais ou menos entre pouco depois da atual Avenida Prestes Maia, até a Rua Doutor Fláquer, e no entorno do Largo da Matriz.

No entanto, o local ainda era extremamente pacato, e estava sendo sufocado aos poucos pelo progresso que a ferrovia trouxe ao Bairro da Estação, atual Santo André. Mas em 1922, o então presidente da Província (Governador do Estado) Washington Luiz, com seu lema “governar é abrir estradas”, ordena a reconstrução da Estrada da Maioridade (Estrada Velha de Santos) em seu trecho de serra, a rodovia é pavimentada com concreto, e o pavimento original está ali na serra até os dias atuais. Era a primeira rodovia pavimentada da América do Sul.

A Reconstrução da Estrada, tira São Bernardo de um longo período de “sono profundo”. Os Automóveis, que proliferavam na Capital Paulista, passam a atravessar a cidade todos os finais de semana, levando veranistas e viajantes a Santos. Era comum a parada em São Bernardo para a refeição, o almoço ou jantar, ou um pernoite nas estalagens e restaurantes estabelecidos ao longo da Marechal Deodoro. São Bernardo ganha vida, e visitas ilustres, como a dos Modernistas de 1922, que costumavam passar pela cidade para fazer refeições, ou apenas para apreciar o luar no Pouso Paranapiacaba (casa de pedra) no Alto da Serra.

A Parada mais apreciada pelos viajantes era o “Magnólia”, localizado onde hoje está instalado o supermercado Wal Mart, no final da Rua Marechal Deodoro.

Descrições sobre as paradas em São Bernardo também podem ser encontradas na obra de Zélia Gattai, esposa do eterno Jorge Amado. Seu pai, foi o primeiro automobilista a realizar uma viagem entre Santos e São Paulo a bordo deste tipo de veículo. Zélia também tinha parentes em São Caetano.

Por volta de 1930, já existia todo um comércio formado a disposição dos viajantes que cruzavam a cidade, no entanto, em 1947, durante a administração de Tereza Delta, é inaugurado todo o trecho de Planalto da Via Anchieta e a primeira pista de descida, que na época era feita em mão dupla. A segunda pista só seria inaugurada em 1953. Partindo do Ipiranga, a Via Anchieta corta o velho caminho em diversos pontos, oferecendo uma viagem muito mais rápida e tranqüila.

O Trecho do caminho que passava no meio de São Bernardo, fica reservado ao trânsito local, e o comércio voltado aos viajantes sofre. Depois de 1947, a já Rua Marechal Deodoro, passa a receber apenas o tráfego local da pequena cidade.

No fim dos anos 50, as margens da Via Anchieta começam a receber um sem número de indústrias, que buscam a localização estratégica entre o Porto de Santos e a Capital Paulista, e daí pra frente, São Bernardo não para mais de crescer.

O Patrimônio que caracterizava a principal rua da cidade, vai caindo durante os anos 50 e 60 principalmente, e a rua começa a se tornar o que é hoje. Sai o paralelepípedo, entra o asfalto, sai a tranqüilidade, e entra o ritmo frenético do comércio. Saem os cumprimentos aos conhecidos do dia a dia, e entra a feição sisuda. A Cidade crescia, e a sua memória morria.

5 comentários:

Thais.. disse...

Novas memórias podem estar nascendo. As ruas e o comércio agora com outro intuito...mas, por que não, ainda importantes.

Tem aquele 'pequeno museu' ali no meio. O esforço da cidade em não esquecer do passado pode atingir de maneira positiva os moradores, aguçando suas curiosidades ou os fazendo manter o respeito pelo passado.
Mesmo que esse tal esforço ainda seja bem tímido...

Blog do Fernando (FEFO) disse...

Eu lamento muito a total ausência de árvores na Marechal Deodoro..., já repararam?
Quando é verão é muito quente e no inverno é gelado...
A prefeitura e a secretaria de meio ambiente deveriam impor a plantação de árvores na cidade!

Anônimo disse...

Localizei seu blog devido a uma pesquisa de escola para minha filha. Parabéns. Nem no site oficial de São Bernardo existem informações sobre a Marechal Deodoro, apenas fotos.
Nasci e me criei aqui e lamento profundamente o estado em que o Centro e o restante da cidade se encontram.
Há 40 anos, morar aqui era motivo de orgulho, devido à organização, limpeza, pontos turísticos etc.
Hoje, falar o quê de SBC?

Carla disse...

Sou mãe e também encontrei o seu blog para uma pesquisa de trabalho de escola de meu filho. Parabéns pelas publicações! Continue com esse trabalho! Muito bom mesmo!

Anônimo disse...

Olá, encontrei seu blog através de um trabalho escolar.
muito bom mesmo, parabéns e continue com esse trabalho!
obrigado.