domingo, 26 de julho de 2009

DER – Uma favela no coração da cidade

Quem é de São Bernardo, certamente já ouviu falar ou já esteve, ou até mora no chamado “DER” ou “favela do DER”. Como a palavra “favela” se tornou ofensiva, vou procurar restringir o uso dela neste texto.



Para quem passa pela Via Anchieta, e não tem contato com a cidade, o DER é o conjunto de casas humildes que pode ser avistado do lado esquerdo da pista, no sentido de quem vem da Capital e segue em direção a Santos.



Por dentro da cidade, o DER margeia todo o Centro, desde o Estádio Primeiro de Maio, até a Rua Newton Prado. Mas aí surge a pergunta: Como deixaram isso acontecer em pleno centro de São Bernardo do Campo?



A Resposta é histórica! Voltemos a década de 1930. Durante o início dela, já se discutia fervorosamente a idéia da construção de uma nova via entre São Paulo e Santos, pois o antigo Caminho do Mar, pavimentado em seu trecho de serra em 1922, já não suportava o tráfego pesado. Além disso, era sinuoso e perigoso, em seu trajeto antigo, “dependurado” na encosta da serra do mar. Em 1940, começam as obras de uma rodovia que iria se tornar um marco da engenharia brasileira, e um divisor de águas na história de São Bernardo do Campo: A Via Anchieta. Partindo do Ipiranga, em pista dupla, ela atravessava suavemente o planalto, e rasgava a serra do mar com curvas consideradas na época extremamente suaves. Além disso, o seu trecho serrano tinha um aclive/declive muito suave se comparado ao do Caminho do Mar, uma verdadeira pirambeira!



Para construir a rodovia, um verdadeiro exército de trabalhadores foi mobilizado pelo Governo do Estado de São Paulo, trabalhadores vindos de todas as partes construíam estradas de serviço que se tornaram avenidas da cidade, e rasgavam a nova via que escoaria o produto de São Paulo rumo ao porto. Travava-se aqui uma epopéia semelhante a da construção da São Paulo Railway no século XIX.



Como a obra exigia atenção durante 24 horas, acampamentos foram construídos para os funcionários, e um dele, no atual km 20 da rodovia – o acampamento do DER. Porque DER? DER é a sigla do Departamento de Estradas de Rodagem do Estado de São Paulo. Neste acampamento, em casas de madeira, algumas com quartos “comuns” ou coletivos, e em outras menos modestas, estes operários vindos de vários pontos do país encontraram a sua morada durante as obras da nova rodovia. Na época, o centro de São Bernardo ainda não tinha chegado até as proximidades do acampamento, e ficava restrito ao entorno da Praça da Matriz.



Em 1947, é inaugurado o trecho de planalto da Via Anchieta, entre o Ipiranga (Sacoman) e o Alto da Serra. A Descida da serra era feita em mão dupla. A segunda pista, como já citei em outro texto, seria inaugurada apenas em 1953.



Com a inauguração da rodovia, o Departamento de Estradas de Rodagem só esqueceu de uma coisa: Providenciar um destino para os operários. Sendo assim, a maioria optou por viver ali mesmo, no acampamento. Alguns voltaram. E os que ficaram trouxeram ou constituíram as suas famílias. Durante os anos 60, o local vive a sua primeira expansão, assim como a própria cidade, que já crescia vertiginosamente. Nos anos 70, um verdadeiro “boom”. Neste período, e durante os anos 80, a violência marca a comunidade. Nestes anos, o DER assustava com os seus índices de criminalidade.



Nos anos 70 e 80, as casas (alojamentos) do antigo acampamento, já estão em condições precárias, e totalmente cercados por outras habitações, casas de gente humilde, construídas sem o mínimo de planejamento urbano, e que configuraram um dos maiores problemas de habitação da cidade neste período (ao mesmo tempo, os morros verdes que cercavam a cidade também são dominados pelas favelas, conseqüência do “sonho” provocado pela expansão da indústria automobilística, que com a crise dos anos 80, fez muita gente comer o pão que o diabo amassou em São Bernardo).



No fim dos anos 70, Centro e DER já estão “colados” um ao outro. Nos anos 90, a comunidade vive a sua última grande expansão, no sentido da Via Anchieta. No fim dos anos 90, o CDHU, companhia de habitação do governo do estado, inicia uma parceria malfadada com a Prefeitura de São Bernardo. Poucas unidades habitacionais foram concluídas na tentativa de resolver o problema da habitação desordenada do DER, e claro, de suas áreas de risco.



Hoje, a violência já não marca mais o DER, que de um “bico” do Centro encravado ás margens da Via Anchieta, passou a ser atravessado por vias importantes e a ter acessos a outros pontos da cidade. No entanto, sua população ainda aguarda soluções por parte da prefeitura em matéria de educação, transporte coletivo, habitação e saúde pública.



O DER, foi a primeira favela de São Bernardo do Campo, e surgiu por um mero acaso, se expandiu desordenadamente como grande parte da cidade, e hoje espera por soluções que ponham fim a triste sina do lugar. Que dias melhores venham para a comunidade!

9 comentários:

eu disse...

Parabéns por se preocupar e principalmente documentar a história da cidade e suas comunidades. Obrigada!

Uma batateira de coração, Samara Montalvão

Anônimo disse...

Muito bom!!! Vc pode postar algo sobre a história da favela do areião ?

Marcelo Forshaid disse...

Olá amigo.
Meu avo era dono de uma grande gravadora que ficava na R. Eugenia de Sá Vitale, e vendeu o predio e fabrica de discos nos anos 90.
Gostaria de saber se voce conhece o local e se tem alguma foto de lá, ou saberia me indicar alguem que more por lá e que possa me ajudar.
Obrigado

Anônimo disse...

Ola muito bom este artigo meu pai era funcionario do DER e foi um dos fundadores do DER (bairro )moro aqui desde quando nasci 36 anos e amo esse lugar apesar de tudo ,abraço

Anônimo disse...

a cdhu acabou com o sonhos de todos do os moradores do vila ferreira em 2011 e ate hoje nem procura saber como as pessoas estão como aquelas crianças que nos seus barraquinhos que pra elas eram seus lares e hoje nos pais temos que passar por nescessidadespara pagar um absurdo de aluguel q eles mesmo causaras esses almentos , então cdhu procurem lembrar desses seres humanos q vcs trataro como animais

Edna disse...

Eu Nasci no acampamento do DER, e morei lá até os 7 anos em 1970, meu pai é aposentado do DER (faleceu este ano de 2013), trabalhou na construção da Anchieta, meus olhos enchem de lagrimas de saudade do meu pai, trabalhador exemplar, Sr. Cosme Martins Guerra. Te amo.

raul nascimento disse...

Sou Raul nascido e criado no morro do d.e.r adoro minha terra natal hj em dia moro em diadema mas se fosse pra escolher eu ainda optaria por morar la na comunidade d.e.r

Nery Farias disse...

Parabens!

Ótimo registro, texto riquíssimo. Sou Professor da EJA em SBC e atuo na comunidade do DER. Nerivan

Everson Alves Oliveira disse...

Sou neto e filho de pessoas ilustres deste lindo Bairro, sou neto da Dna. Eurides ou seja, sou familia Eurides, quando se fala em DER as palavras somem porque, não ha lugar como este. temos problemas sim, mas temos tambem uma coisa que não se encontra em lugar algum, uma coisa chamada familia DER, falamos por aqui que o corre em nossa veia, por mais que falam que é igual a qualquer um, só quem é DER sabe.
DER minha vida meu amor, mesmo que estejas longe DER minha vida é você.