quarta-feira, 22 de julho de 2009

O São-Bernardense vai ao cinema!


Foto: Cine Enrico Caruso, depois Cine São Bernardo -
antes da reforma. Foto dos anos 30 - autor desconhecido

São Bernardo, início dos anos 20 do Século XX.


Um lugarejo pacato e rural, que ainda não havia despertado para o que conhecemos como “progresso”. Uma viagem à Capital, era demorada e cansativa, afinal os sacolejos dos antigos caminhos de terra que ligavam as duas localidades, não eram domados com facilidade. Rádio? Um artigo de luxo, que ainda dava os seus primeiros passos no país. Neste tempo, ainda não existia nenhuma emissora de rádio no Brasil.



Foto: Cine Enrico Caruso - Depois Cine São Bernardo. Imagem da parte interna.

Saber “das coisas” era algo complicado. As notícias eram propagadas pelos poucos jornais que circulavam na época em São Bernardo. A Maioria deles, quinzenais ou mensais, e geralmente meros veículos de propaganda ligados a determinados partidos políticos, ou a “caciques” de nossa região.

Vivia-se uma vida bastante restrita no quesito “informação”.

Mas, uma moda vinha se espalhando rapidamente pelo país desde o início do Século XX: O Cinema, ou cinematógrafo.

Na Capital, as salas de cinema multiplicavam-se rapidamente, e a grande “febre” possibilitou a abertura de salas menores ou mais modestas, em vilas, bairros e cidades do interior, a baixos custos, para o deleite da população.

Em São Bernardo, não foi diferente. No início da década de 1920, inaugura-se a primeira sala de cinema da cidade: O Cine Enrico Caruso, na Rua Marechal Deodoro (nº1229). Uma típica sala de cinema interiorana, com capacidade pequena, cadeiras duras, e poucos luxos. No entanto, em um lugar onde as novidades sempre demoravam muito mais para chegar, a nova atração teve sucesso estrondoso!

Além de sediar exibições de filmes, inicialmente mudos, e geralmente com temas que agradavam a grande colônia italiana da cidade (o próprio nome do cinema – Enrico Caruso – é homenagem a um grande personagem italiano) a sala também sediava encontros importantes da comunidade São-Bernardense. Neste cinema, foi fundado o Esporte Clube São Bernardo em 1928, e ali, vários bailes e outros eventos beneficentes ou não “agitavam” o pequeno núcleo de moradores.


O Cinema Enrico Caruso teve vida longa, e mudou de nome algumas vezes. Embora o tenor Italiano tenha emprestado seu nome à sala inicialmente, este cinema ficou mais conhecido por “Cine São Bernardo”, nome que ostentou por mais tempo, sendo o mais antigo cinema da cidade. Em 1952, ele passou por uma grande reforma, pois São Bernardo (do Campo) crescia, a população aumentava, e a concorrência já existia. Vale ressaltar que após a reforma, o antes acanhado cinema passou a contar com uma capacidade para 1.100 espectadores.


Falando em concorrência, o Cine São Bernardo recebeu a grande reforma em 1952 quando foi comprado pela Empresa de Cinemas Eldorado, que já era dona do maior e mais novo cinema da cidade, e talvez, o mais famoso e emblemático: O Cine Anchieta, localizado na mesma Rua Marechal Deodoro, mas no nº 919. O Cine Anchieta tinha linhas modernas para a época, instalações amplas, e capacidade para 2069 pessoas! Está certo, 2069 pessoas na época, não era nenhum “colosso” de cinema. Até mesmo Santo André e São Caetano tinham cinemas maiores como o Vitória (S.Caetano) e o Tangará (Sto.André), mas o Anchieta era o maior de São Bernardo e isso bastava!


Foto: Fachada do Cine Anchieta, na Rua Marechal Deodoro. O Maior da cidade!

Na década de 1950, as salas de cinema ainda estavam a pleno vapor, pois apesar do rádio e dos jornais já serem objetos corriqueiros de informação, a televisão ainda engatinhava, e assim como o rádio nos anos 20, ter um aparelho de TV na década de 50 era luxo para poucos!

O Cinema era então o meio de comunicação visual das massas. Antes dos filmes, eram exibidos “cine-jornais”, geralmente pequenos documentários sobre uma partida de futebol, ou até sobre fatos desatualizados, mas que eram acompanhados com atenção total por conta da imagem, o grande diferencial!

O Problema dos cinemas “de rua”, eram a pequena quantidade de salas. Enquanto hoje, cinemas de shoppings possuem até 15 salas, o cinema de rua possuía apenas uma, o que limitava a quantidade de filmes a serem exibidos. Os cinemas que possuíam “balcões” (aquela arquibancada superior, acima da platéia) ainda conseguiram por meio do fechamento destes, a criação de mais uma sala, mas os que não tinham restringiam a exibição de filmes e iam perdendo espaço para os cinemas dos shoppings.

No Entanto, São Bernardo resistiu mais tempo a essa tendência, pois aqui os shoppings tardaram um pouco a chegar. Mas, nos anos 80, com a popularização dos vídeo-cassetes, nenhum destes tradicionais cinemas da cidade resistiu. Uma pena!

O Cine São Bernardo foi totalmente demolido, em seu lugar existe um conjunto de edifícios/lojas. Já o Cine Anchieta, foi fechado, mas seu prédio existe até hoje, ocupado por uma famosa loja, quase na esquina com a Avenida Prestes Maia.

Mas e os bairros?

São Paulo, a nossa capital, assim como as demais cidades do ABC, tinham bairros maiores do que os de São Bernardo, e por este motivo, concentravam grandes salas de cinema, deixando as mais luxuosas para o centro da cidade. O único grande bairro de São Bernardo, na época, era o Rudge Ramos (ou “Meninos”) que ganhou uma respeitosa sala de cinema própria: O Cine Boreal.

Foto: O Jornal noticia com certa ironia a desativação do Cine Boreal, nos anos 70.

O Cine Boreal foi inaugurado no nº 4 do Largo São João Batista (Largo do Rudge), mais precisamente na porção conhecida como “Largo da Capela” em 1950. Era um pequeno cinema de bairro com capacidade para 650 pessoas, e pertencia a Geraldo Rosão e Loris B.B. Santarelli. Teve um tempo de vida bastante razoável se levarmos em conta os problemas citados acima, que acabaram com praticamente todos os cinemas de rua. Foi fechado em 1970, e no mesmo prédio, um supermercado foi aberto. O Prédio, sofreu um incêndio em 1988 e foi demolido. Em seu lugar hoje, está uma loja do Pão-de-Açúcar, fechada. Era um marco do Rudge Ramos.

Atualmente, vivemos cercados de informação, ela é bombardeada sobre nossas cabeças, vinda de todas as direções. Estes cinemas, embora para muitos sejam apenas prédios velhos e caídos, foram marcos na vida de muitos São-Bernardenses. Ali, o primeiro beijo, o primeiro filme, um momento inesquecível foi vivido, pois é isto que o cinema proporciona ou proporcionou a muitos de nós, isso sem falar no convívio social. Nestes prédios, pessoas conheciam-se, encontravam-se e viviam amizades e outros tipos de relacionamento, que caracterizam uma comunidade.

Hoje, diante do seu “cinema pessoal”, em casa, você mal conhece o seu vizinho... Tempos modernos?

Fotos e dados: Atílio Santarelli – Em Cinemas Antigos do Brasil (Ver link nos “favoritos” do blog, e não deixe de visitar!)

3 comentários:

Fábio Silva disse...

Uma iniciativa belíssima de um apaixonado por São Bernardo! É assim que posso descrever esta maravilhosa ação do Thiago, que venho acompanhando há dias e que resultou neste interessante blog, em que é possível viajar no tempo num texto leve em termos de leitura, mas carregado de conteúdo. Com certeza vou indicar!

Sorte e sucesso!
Fábio S. Gomes
Proj. Origem das Famílias de São Bernardo do Campo

The Juzé disse...

Tenho pouca esperança de que esse comentário seja lido, mas mesmo assim vou tentar.

Gostaria muito de saber das suas fontes, onde leu, com quem falou. Quero muito saber mais sobre o passado do cinema na cidade.

Anônimo disse...

Havia um cinema no Conjunto Anchieta que não foi citado. Assisti Superman em 1978 nessa sala. Ao lado havia a Capri Discoteca.